quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Análise: Arise (Sepultura)




Arise
Sepultura – Album: Arise (1991)


Obscured by the Sun
Apocalyptic Clash
Cities fall in ruin
Why must we die?

Obliteration of mankind
Under a pale grey Sky
We shall arise

I did nothing, saw nothing
Terrorist confrontation
Waiting for the end
Wartime conspiracy

I see the world, old
I see the world, dead

Victims of war, seeking some salvation
Last wish, fatality
I've no land, I'm from nowhere
Ashes to ashes, dust to dust


Face the enemy
Manic thoughts
Religious intervention
Problems remain

 
Surgir

Obscurecido pelo Sol
Estrondo apocalíptico
Cidades virando ruínas
Por que temos que morrer?

 
Obliteração da raça humana
Debaixo de um céu cinzento
Nos vamos surgir


Eu não fiz nada, não vi nada
Confronto entre terroristas
Esperando pelo final
Tempos de guerra, conspiração

Eu vejo o mundo velho
Eu vejo o mundo morto


Vitimas da guerra, buscando uma salvação
Último desejo, fatalidade
Eu não tenho terra, eu sou de lugar nenhum
Das cinzas as cinzas, do pó ao pó


Encare o inimigo
Pensamentos maníacos
Intervenção religiosa
Problemas continuam
_________________________________________
Análise

Como dito anteriormente, o Sepultura escreve sobre o tema “Guerra Religiosa” em duas canções entre o fim dos anos 80 e início dos 90. Já comentamos sobre “Mass Hypnosis”  e agora falaremos de “Arise”, faixa do disco homônimo de 1991, que elevou a banda a um patamar de excelência nunca antes alcançado por uma banda brasileira no cenário da música (para muito além do gênero Rock/Metal) mundial. (JANOTTI JR, 2004, p.42).

Max Cavalera, vocalista e principal letrista da banda na época, definiu o mote geral da canção da seguinte maneira em entrevista à revista holandesa Aardschok / Metal Hammer em Abril de 1991:
A letra de 'Arise' são realmente up-to-date, porque é sobre como as pessoas estão prontas para matar outras pessoas só porque eles acreditam em um tipo diferente de Deus. acho que a minha voz soa especialmente agressiva nessa música, muito como em nossos álbuns mais antigos. (fonte: site Song Facts, 2008)
A definição realmente não poderia ser mais apropriada.

A primeira linha leva o ouvinte a experimentar um sentimento de confusão, através do uso da antítese contida em “Obscured by the Sun”, e a imagem mais próxima que podemos fazer está nos desertos do oriente médio, onde o sol reflete tão fortemente na areia que queima os olhos e obscurece a visão. Este início cria o cenário onde se desenvolverá a narração.

A música segue, descrevendo uma terra arrasada em “Cities fall in ruin / Why must we die?”, e também oferece ao ouvinte o relato de pessoas que estão no meio do conflito, e provalmente, estão tentando fugir.
O refrão, entretanto, busca a esperança e racionalidade em meio ao desespero da guerra: “Obliteration of mankind / Under a pale grey sky / We shall arise”. O uso de uma palavra incomum “obliteração”, está ligada, não só ao ritmo que as sílabas provome à parte melódica, mas também à uma ideia que é uma operação de pensada para cegar a a humanidade por dogmas.

A estrofe “I did nothing, saw nothing / Terrorist confrontation / Waiting for the end / Wartime conspiracy” traz mais clara a imagem do eu poético, que fala que não fez nada, não disse nada, mas está em meio ao confronto de terroristas e suas ideologias. E exemplifica muito bem o que as pessoas viam nos noticiários da época, e de como o medo dos ataques terroristas substituem o medo da Guerra Nuclear na mente do homem comum, após o fracasso do Comunismo e Capitalismo a todo custo. (HOBSBAWN, 1995, p.538-542)

Como uma das características mais marcantes das melodias do Sepultura nesse período, nós temos um bridge onde há uma quebra brutal no andamento da música, e há um destaque para a vocalização das palavras, com entonação destacada para a última em cada frase: "I see the world, old / "I see the world, dead". Esse recurso aumenta a dramaticidade do tema, e coloca o ouvinte em contato direto com a psique do eu poético, e seu desespero diante do mundo tomado pelo conflito.

A questão do problema dos refugiados da guerra religiosa se cristaliza em “Victims of war, seeking some salvation / last wish, fatality / I've no land, I'm from nowhere /Ashes to ashes, dust to dust”, escancarado quando diz “não tenho terra, sou de lugar nenhum”, e logo podemos fazer qualquer paralelo de conflitos que se multiplicaram principalmente entre islâmicos radicais, judeus e minorias (como os curdos) nas mais diversas partes do mundo. E o final da estrofe trás uma referência religiosa, mostrando ainda a crença do eu poético, pois vê de ele não é nada, pois do pó veio e ao pó retornará.

A canção termina com os versos “Face the enemy /Manic thoughts /Religious intervention /Problems remain”, em que se percebe que a questão religiosa tem aflorado uma série de conflitos que não se resolvem, principalmente no dito “Terceiro Mundo”, onde a violência e a intolerância explodem de maneira extrema, que foram ocultadas pela imposição da força das potências durante o período da Guerra Fria (HOBSBAWN, 1995, p. 421-446). A frase “problemas continuam” é a conclusão perfeita

A música tem sua introdução, com um barulho estranho e tambores, que passam a sensação de alucinações. As guitarras,a bateria e o baixo entram todos numa avalanche sonora, num ritmo frenético, com a predominância dos riffs rápidos e secos junto com o som das batidas rápidas da caixa da bateria. A vocalização gutural arremata o clima raivoso da música. Há uma rápida quebra no andamento para o bridge, mas a música retorna ao seu andamento até o final. 


Como nota importante, a ideia reforçada pelo vídeo clipe da canção, que mostra um Jesus crucificado usando uma máscara contra ataques de bombas de gás.

Para finalizar esta análise, o última frase da canção resume, define e projeta uma situação acerca das guerras religiosas: os problemas contiuam. 



Referências:

ARIÓSTEGUI, Júlio. A pesquisa histórica: teoria e método. Bauru(SP): Edusc,2006.

CHRISTIE, Ian. Heavy Metal: a história completa. São Paulo: Editora Arx,2010.

HOBSBAWN, Eric. Era dos Extremos: O Breve Século XX (1914-1991). São Paulo; Companhia das Letras, 1995
JANOTTI JÚNIOR, Jeder. Heavy Metal com Dendê: rock pesado e mídia em tempos de globalização. Rio de Janeiro: E-papers, 2004

NAPOLITANO, Marcos. A História depois do papel. In PINSKY, Carla Bassanezi (org.) Fontes Históricas. 2ª Edição, São Paulo: Contexto, 2010.
______. História e Música: História cultural da música popular. 3ª Ed. Belo Horizonte: Editora Autêntica, 2005.


<http://www.songfacts.com/detail.php?id=20008> acessado em 16/07/2011

domingo, 20 de outubro de 2013

Análise: Mass Hypnosis (Sepultura)



Mass Hypnosis
Sepultura – Álbum: Beneath the Remains (1989)

Looking inside, your future uncertain
The fear grows as a sickness uncured
The silence agonizes, the words sound strong
Look inside the eyes, leave this world

Hate throught the arteries
Mass hypnosis

Uncertain of being back
Theyu make you feel so good
Everything's darkened
Obey like a fool

Hate throught the arteries
Mass hypnosis

Soldiers going nowhere
Believers kneeling over their sins
Inhuman instinct of cowardly leaders
Make the world go their own way
Tens of thousands hypnotized
Trying to find a reason why
Look inside your empty eyes
Obey 'till the end

Looking inside, your future uncertain
The fear grows as a sickness uncured
The silence agonizes, the words sound strong
Look inside the eyes, leave this world

Hate throught the arteries
Mass hypnosis
Soldiers going nowhere
Soldiers blinded by their faith

Hipnose em Massa

Olhando por dentro, seu futuro incerto
O medo cresce como uma doença incurável
O silêncio agoniza, a palavra soa forte
Olhe dentro dos olhos, deixe este mundo

O ódio corre pelas artérias
Hipnose em massa

Incerto em estar de volta
Eles te fazem se sentir tão bem
Tudo está obscurecido
Obedeça como um tolo

O ódio corre pelas artérias
Hipnose em massa

Soldados indo a lugar algum
Fiéis que se ajoelham sobre os seus pecados
O instinto cruel de líderes covardes
Faz o mundo andar á maneira deles
Dez mil hipnotizados
Tentando achar uma razão, o por quê
Olhe dentro de seus olhos vazios
Obedeça até o fim

Olhando por dentro, seu futuro incerto
O medo cresce como uma doença incurável
O silêncio agoniza, as palavras soam fortes
Olhe dentro dos olhos, deixe este mundo

O ódio corre pelas artérias
Hipnose em massa
Soldados indo a lugar algum
Soldados cegos por suas crenças
_________________________________________

Análise:

A abordagem dos brasileiros do Sepultura acerca do tema “Terrorismo”  está relacionada, principalmente, ao fundamentalismo religioso que permeia as guerras do Oriente Médio, mas não exclusivamente a elas. O titulo da canção, Hipnose em Massa, por si só diz sobre aquilo que a canção quer dizer: a religião que controla os povos cegamente.

A letra traz sentimentos como o medo e o ódio dialogando intimamente, o que nos remete à situação dos chamados “Homens Bombas”.  Logo na primeira estrofe, o trecho "The silence agonizes, the words sound strong / look inside the eyes, leave this world" explicita isso ao ouvinte, dizendo o quanto os líderes teocráticos (e aqui podemos tomar com exemplo mais óbvio os radicais islâmicos) incentivam aos seus comandados que cometam o sacrifício supremo em nome da causa religiosa. Uma morte gloriosa para uma recompensa no Céu, é a mensagem em “deixe este mundo”

A segunda estrofe continua, mas agora em tom mais crítico, de alguém que analisa a situação de fora: "Uncertain of being back / They make you feel so good /everything's darkened obey like a fool". A situação é muito clara, quando o eu poético diz que não há certeza no regresso dessas pessoas, quando elas saem para essas missões. Muitas vezes, eles não sabem que terão que se sacrificar, mas são treinados para isso, sendo obrigados a faze-lo no momento oportuno. E para muitos, isso é desejado, pois os líderes lhes falam de recompensas no outro mundo, e que morrerão como mártires da causa. Na visão externa (como é o eu poético representado na canção) “são tolos” que estão condicionados a obedecer cegamente.

O refrão traz a essência da mensagem quando diz "Hate throught the arteries / mass hypnosis", pois desde crianças os combatentes são ensinados a odiar, e os ressentimentos são usados como arma ideológica dos líderes teocráticos. E o restante do refrão nos confere novamente a visão dos homens bombas: "soldiers going nowhere /believers kneeling over their sins".

Como forma de enfatizar a crítica aos conflitos religiosos, a terceira estrofe é, sem dúvida, a mais contundente, porque primeiro fala de “líderes covardes” , que nunca estão na linha de frente dos conflitos, fazendo que os outros se matem por aquilo que eles querem.  O trecho "Tens of thousands hypnotized trying to find a reason why look inside your empty eyes obey 'till the end" fala abertamente sobre exércitos que são movidos para uma guerra sem sentido pessoal, onde os soldados estão munidos de ideologias que lhes foram impostas, e as quais devem seguir cegamente até o fim.

O fundamentalismo islâmico foi a resposta aos anos de dominação a que foram submetidos pelas potências ocidentais durante a Guerra Fria, e o mundo que nasce desses escombros é mais conflituoso do que belicoso. (HOBSBAWN, 1995, p. 540-541).

Em sua estrutura melódica, Mass Hypnosis segue linhas bem definidas do que o Sepultura apresentou no álbum “Beneath the Remains”. Guitarras rápidas e sujas, bateria cadenciada permeada de bumbo duplo, muitas mudanças de andamento e um grande destaque às linhas de solo de Andreas Kisser, para depois voltar ao peso e rapidez costurados com a linha vocal super agressiva de Max Cavalera.  Tudo isso dá uma construção perfeita para a letra, aumentando a tensão nas palavras do jogo de medo e ódio sugerido nela.

O assunto das guerras religiosas é tão rico para o Thrash Metal, que são infindáveis as bandas que falam sobre isso. O próprio Sepultura voltará ao assunto em 1991 em Arise, mas isso fica para a próxima.

Referências:

ARIÓSTEGUI, Júlio. A pesquisa histórica: teoria e método. Bauru(SP): Edusc, 2006.

CHRISTIE, Ian. Heavy Metal: a história completa. São Paulo: Editora Arx,2010.

HOBSBAWN, Eric. Era dos Extremos: O Breve Século XX (1914-1991). São Paulo; Companhia das Letras, 1995

JANOTTI JÚNIOR, Jeder. Heavy Metal com Dendê: rock pesado e mídia em tempos de globalização. Rio de Janeiro: E-papers, 2004

NAPOLITANO, Marcos. A História depois do papel. In PINSKY, Carla Bassanezi (org.) Fontes Históricas. 2ª Edição, São Paulo: Contexto, 2010.
______. História e Música: História cultural da música popular. 3ª Ed. Belo
Horizonte: Editora Autêntica, 2005.


domingo, 15 de setembro de 2013

Análise: Coma of Souls (Kreator)



Continuando as análises sobre o tema Terrorismo, analisaremos agora a canção “Coma of Souls”, do disco homônimo lançado pelos germânicos do Kreator em 1990.





Coma Of Souls
Kreator – Album: Coma of Souls (1990)

Masters of war
Merchants of false peace
Bleeding the lives of the lost
Feeding them terminal disease
Breaking the rules
No matter who gets hurt
Wholesaling useless trash
Charging twice what it's worth

Freedom of thought a mirage
The coma is endless and deep
Feeling so worldly and wise
Fooled by the friends that we keep

Spirits on ice
They'll never be free
One-dimensional lives
Will the coma of souls outlive eternity

Children are pawns
For generals to play with and kill
Mercy will never be found
Where mayhem is done for the thrill
Righteous crusades
Murder to honor a god ?
No one is saved
Dead bodies shrivel and rot

Deep in the unconscious mind
Lies the oldest wisdom
Buried by centuries
Of war and inquisition
Truth is raped and crucified
By men with savage brains
And greed flows forth in endless waves
From fools to wretched slaves

Coma das almas (tradução)

Mestres da guerra
Comerciantes da falsa paz
 O Sangrar das vidas perdidas
Alimentando-lhes a doença terminal
Quebrando as regras
Não importa quem fica ferido
Vendendo por atacado o lixo inútil
Carregar duas vezes o que vale a pena

Liberdade do pensamento - uma miragem
O coma é profundo e infinito
Sentimento tão mundano e sábio
Enganado pelos amigos que nós mantemos

Espíritos congelados
Nunca estarão livres
Vidas Unidimensionais
O coma das almas vai durar pela eternidade?

As crianças são penhores
Para os generais a jogar e matar
Piedade nunca será encontrada
Onde mutilação é feita por prazer
Cruzadas justas
Matar para honrar um deus?
Ninguém está salvo
Cadáveres murcham e apodrecem

Nos confins da mente inconsciente
Repousa a sabedoria ancestral
Enterrada por séculos
De guerra e da inquisição
 A verdade é violada e crucificada
Por homens de cérebros selvagens
E a ganância flui adiante em ondas infinitas   
Dos tolos aos escravos desprezíveis
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Análise:
Como já caracterizado anteriormente, o Kreator (nessa fase da carreira) se notabiliza por ser uma banda bem direta, que fala de maneira clara, objetiva e crítica junto à sua audiência. Em “Coma of Souls” não poderia ser diferente, quando logo na primeira estrofe Petrozza vocifera as primeiras linhas “Masters of war / Merchants of false peace” numa referência clara ao que aconteceu nos países do antigo bloco socialista, e em especial na URSS, quando os arsenais de guerra são vendidos sem nenhum controle por grandes comerciantes de armas, criando um mercado milionário de morte e destruição. Situação gravemente sentida com o fim da Alemanha Oriental em 1989, onde os soldados soviéticos estavam em situação de extrema penúria, e venderam tudo o que tinham nos acampamentos para guerrilheiros e terroristas dos mais variados lugares (MONIZ BANDEIRA, 2009, p. 200). Essa crítica fica ainda mais cristalina na continuação do verso "Breaking the rules /No matter who gets hurt /Wholesaling useless trash /Charging twice what it's worth
No trecho "Freedom of thought a mirage / The coma is endless and deep" fala-se sobre a maneira dos líderes, que conduzem seus países de maneira autoritária e personalista, não dando chance das pessoas pensarem por si próprias.

O refrão, entretanto, deixa no ouvinte mais perguntas do que respostas “Spirits on ice / They'll never be free / One-dimensional lives / Will the coma of souls outlive eternity”. A crítica ao fundamentalismo está aí, mas não fica claro quem o “eu poético” está criticando, deixando ao ouvinte (e aos pesquisadores) um amplo leque de opções. Podem ser tantos os terroristas islâmicos, quanto os exércitos americanos, quanto a guarda chinesa. As almas congeladas são uma metáfora para dizer que àquilo que as religiões deviam cuidar (as almas humanas) está em coma devido às ideologias e destruição a que elas estão sujeitas no plano material.
O mundo pós Guerra Fria tornou-se muito mais perigoso, inundado de armas (HOBSBAWN, 1995, p. 250-251). Há uma democratização dos meios de aniquilação, uma “privatização” dos mercados de morte, o que leva a situações como as relatadas nos versos “Children are pawns / For generals to play with and kill / Mercy will never be found / Where mayhem is done for the thrill”, uma imagem que amplamente conhecemos dos conflitos de guerrilha pelo mundo, com crianças segurando armamentos pesados, ensinados a odiar desde a tenra idade. Ensinados a matar, apenas porque o outro não segue o seu líder e seus preceitos religiosos/políticos.

No trecho “Righteous crusades / Murder to honor a god?” consolida  a mensagem da música, que trata das guerras religiosas, e novamente faz o ouvinte refletir sobre a necessidade de matar em honra de um deus. Esse trecho da canção é muito feliz quando se refere a deus e não a “Deus”, pois se distancia totalmente de qualquer religião, não trazendo qualquer julgamento de valor e sem dizer que esta ou aquela religião está certa.
O último verso da música é cantado de maneira diferente, e é onde o “eu poético” conclui seu raciocínio e alerta sobre a natureza humana que traz para o seio da religião a ideia de matar para doutrinar. Em “Deep in the unconscious mind / Lies the oldest wisdom” fala sobre como o ser humano sabe a resposta, dentro de cada ser, sem depender que profetas digam o que é certo ou errado. Na sequencia "Buried by centuries / Of war and inquisition" temos a primeira referência a alguma religião específica, quando fala sobre a inquisição, dizendo que a consciência humana ficou enterrada pela ideias do dogma católico.  “Truth is raped and crucified / By men with savage brains / And greed flows forth in endless waves / From fools to wretched slaves” finaliza reforçando a questão dos mercadores da morte, que criam cartéis, máfias e outras organizações criminosas ao redor do mundo, abastecendo as guerras religiosas que fazem milhões de vítimas por conta dos homens e seus desejos de poder.

Para encorpar essa letra cheia de críticas virulentas e questões inquietantes, o Kreator criou uma melodia intensa, com andamento muito acelerado, como era a característica mais marcante da banda até aquele período. As guitarras são a “alma” da canção, como começam rasgadas e furiosas, em riffs duplicados, acompanhados pela avalanche sonora despejada pela bateria. A intensidade não deixa dúvidas que a letra trata de um assunto que desperta sentimentos como a raiva e a angustia. Quando há a quebrada no andamento para a entrada da última estrofe, numa cadência que faz o ouvinte prestar mais atenção à letra, com ênfase na pronúncia das palavras. Quando a música volta ao andamento inicial, o vocalista Mille Petrozza berra de maneira desconcertante e alerta “Coma of Souls”. 

A pergunta suscitada pela canção ainda permanece sem resposta: O coma das almas sobreviverá eternamente?

Referências bibliográficas

CHRISTIE, Ian. Heavy Metal: a história completa. São Paulo: Editora Arx, 2010.

HOBSBAWN, Eric. Era dos Extremos: O Breve Século XX (1914-1991). São Paulo; Companhia das Letras, 1995.

MONIZ BANDEIRA, Luiz Alberto. A Reunificação da Alemanha: do ideal socialista ao socialismo real. 3ª edição, São Paulo: Editora Unesp; 2009.

NAPOLITANO, Marcos. A História depois do papel. In PINSKY, Carla Bassanezi (org.) Fontes Históricas. 2ª Edição, São Paulo: Contexto, 2010.
______. História e Música: História cultural da música popular. 3ª Ed. Belo Horizonte: Editora Autêntica, 2005.