domingo, 20 de outubro de 2013

Análise: Mass Hypnosis (Sepultura)



Mass Hypnosis
Sepultura – Álbum: Beneath the Remains (1989)

Looking inside, your future uncertain
The fear grows as a sickness uncured
The silence agonizes, the words sound strong
Look inside the eyes, leave this world

Hate throught the arteries
Mass hypnosis

Uncertain of being back
Theyu make you feel so good
Everything's darkened
Obey like a fool

Hate throught the arteries
Mass hypnosis

Soldiers going nowhere
Believers kneeling over their sins
Inhuman instinct of cowardly leaders
Make the world go their own way
Tens of thousands hypnotized
Trying to find a reason why
Look inside your empty eyes
Obey 'till the end

Looking inside, your future uncertain
The fear grows as a sickness uncured
The silence agonizes, the words sound strong
Look inside the eyes, leave this world

Hate throught the arteries
Mass hypnosis
Soldiers going nowhere
Soldiers blinded by their faith

Hipnose em Massa

Olhando por dentro, seu futuro incerto
O medo cresce como uma doença incurável
O silêncio agoniza, a palavra soa forte
Olhe dentro dos olhos, deixe este mundo

O ódio corre pelas artérias
Hipnose em massa

Incerto em estar de volta
Eles te fazem se sentir tão bem
Tudo está obscurecido
Obedeça como um tolo

O ódio corre pelas artérias
Hipnose em massa

Soldados indo a lugar algum
Fiéis que se ajoelham sobre os seus pecados
O instinto cruel de líderes covardes
Faz o mundo andar á maneira deles
Dez mil hipnotizados
Tentando achar uma razão, o por quê
Olhe dentro de seus olhos vazios
Obedeça até o fim

Olhando por dentro, seu futuro incerto
O medo cresce como uma doença incurável
O silêncio agoniza, as palavras soam fortes
Olhe dentro dos olhos, deixe este mundo

O ódio corre pelas artérias
Hipnose em massa
Soldados indo a lugar algum
Soldados cegos por suas crenças
_________________________________________

Análise:

A abordagem dos brasileiros do Sepultura acerca do tema “Terrorismo”  está relacionada, principalmente, ao fundamentalismo religioso que permeia as guerras do Oriente Médio, mas não exclusivamente a elas. O titulo da canção, Hipnose em Massa, por si só diz sobre aquilo que a canção quer dizer: a religião que controla os povos cegamente.

A letra traz sentimentos como o medo e o ódio dialogando intimamente, o que nos remete à situação dos chamados “Homens Bombas”.  Logo na primeira estrofe, o trecho "The silence agonizes, the words sound strong / look inside the eyes, leave this world" explicita isso ao ouvinte, dizendo o quanto os líderes teocráticos (e aqui podemos tomar com exemplo mais óbvio os radicais islâmicos) incentivam aos seus comandados que cometam o sacrifício supremo em nome da causa religiosa. Uma morte gloriosa para uma recompensa no Céu, é a mensagem em “deixe este mundo”

A segunda estrofe continua, mas agora em tom mais crítico, de alguém que analisa a situação de fora: "Uncertain of being back / They make you feel so good /everything's darkened obey like a fool". A situação é muito clara, quando o eu poético diz que não há certeza no regresso dessas pessoas, quando elas saem para essas missões. Muitas vezes, eles não sabem que terão que se sacrificar, mas são treinados para isso, sendo obrigados a faze-lo no momento oportuno. E para muitos, isso é desejado, pois os líderes lhes falam de recompensas no outro mundo, e que morrerão como mártires da causa. Na visão externa (como é o eu poético representado na canção) “são tolos” que estão condicionados a obedecer cegamente.

O refrão traz a essência da mensagem quando diz "Hate throught the arteries / mass hypnosis", pois desde crianças os combatentes são ensinados a odiar, e os ressentimentos são usados como arma ideológica dos líderes teocráticos. E o restante do refrão nos confere novamente a visão dos homens bombas: "soldiers going nowhere /believers kneeling over their sins".

Como forma de enfatizar a crítica aos conflitos religiosos, a terceira estrofe é, sem dúvida, a mais contundente, porque primeiro fala de “líderes covardes” , que nunca estão na linha de frente dos conflitos, fazendo que os outros se matem por aquilo que eles querem.  O trecho "Tens of thousands hypnotized trying to find a reason why look inside your empty eyes obey 'till the end" fala abertamente sobre exércitos que são movidos para uma guerra sem sentido pessoal, onde os soldados estão munidos de ideologias que lhes foram impostas, e as quais devem seguir cegamente até o fim.

O fundamentalismo islâmico foi a resposta aos anos de dominação a que foram submetidos pelas potências ocidentais durante a Guerra Fria, e o mundo que nasce desses escombros é mais conflituoso do que belicoso. (HOBSBAWN, 1995, p. 540-541).

Em sua estrutura melódica, Mass Hypnosis segue linhas bem definidas do que o Sepultura apresentou no álbum “Beneath the Remains”. Guitarras rápidas e sujas, bateria cadenciada permeada de bumbo duplo, muitas mudanças de andamento e um grande destaque às linhas de solo de Andreas Kisser, para depois voltar ao peso e rapidez costurados com a linha vocal super agressiva de Max Cavalera.  Tudo isso dá uma construção perfeita para a letra, aumentando a tensão nas palavras do jogo de medo e ódio sugerido nela.

O assunto das guerras religiosas é tão rico para o Thrash Metal, que são infindáveis as bandas que falam sobre isso. O próprio Sepultura voltará ao assunto em 1991 em Arise, mas isso fica para a próxima.

Referências:

ARIÓSTEGUI, Júlio. A pesquisa histórica: teoria e método. Bauru(SP): Edusc, 2006.

CHRISTIE, Ian. Heavy Metal: a história completa. São Paulo: Editora Arx,2010.

HOBSBAWN, Eric. Era dos Extremos: O Breve Século XX (1914-1991). São Paulo; Companhia das Letras, 1995

JANOTTI JÚNIOR, Jeder. Heavy Metal com Dendê: rock pesado e mídia em tempos de globalização. Rio de Janeiro: E-papers, 2004

NAPOLITANO, Marcos. A História depois do papel. In PINSKY, Carla Bassanezi (org.) Fontes Históricas. 2ª Edição, São Paulo: Contexto, 2010.
______. História e Música: História cultural da música popular. 3ª Ed. Belo
Horizonte: Editora Autêntica, 2005.


domingo, 15 de setembro de 2013

Análise: Coma of Souls (Kreator)



Continuando as análises sobre o tema Terrorismo, analisaremos agora a canção “Coma of Souls”, do disco homônimo lançado pelos germânicos do Kreator em 1990.





Coma Of Souls
Kreator – Album: Coma of Souls (1990)

Masters of war
Merchants of false peace
Bleeding the lives of the lost
Feeding them terminal disease
Breaking the rules
No matter who gets hurt
Wholesaling useless trash
Charging twice what it's worth

Freedom of thought a mirage
The coma is endless and deep
Feeling so worldly and wise
Fooled by the friends that we keep

Spirits on ice
They'll never be free
One-dimensional lives
Will the coma of souls outlive eternity

Children are pawns
For generals to play with and kill
Mercy will never be found
Where mayhem is done for the thrill
Righteous crusades
Murder to honor a god ?
No one is saved
Dead bodies shrivel and rot

Deep in the unconscious mind
Lies the oldest wisdom
Buried by centuries
Of war and inquisition
Truth is raped and crucified
By men with savage brains
And greed flows forth in endless waves
From fools to wretched slaves

Coma das almas (tradução)

Mestres da guerra
Comerciantes da falsa paz
 O Sangrar das vidas perdidas
Alimentando-lhes a doença terminal
Quebrando as regras
Não importa quem fica ferido
Vendendo por atacado o lixo inútil
Carregar duas vezes o que vale a pena

Liberdade do pensamento - uma miragem
O coma é profundo e infinito
Sentimento tão mundano e sábio
Enganado pelos amigos que nós mantemos

Espíritos congelados
Nunca estarão livres
Vidas Unidimensionais
O coma das almas vai durar pela eternidade?

As crianças são penhores
Para os generais a jogar e matar
Piedade nunca será encontrada
Onde mutilação é feita por prazer
Cruzadas justas
Matar para honrar um deus?
Ninguém está salvo
Cadáveres murcham e apodrecem

Nos confins da mente inconsciente
Repousa a sabedoria ancestral
Enterrada por séculos
De guerra e da inquisição
 A verdade é violada e crucificada
Por homens de cérebros selvagens
E a ganância flui adiante em ondas infinitas   
Dos tolos aos escravos desprezíveis
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Análise:
Como já caracterizado anteriormente, o Kreator (nessa fase da carreira) se notabiliza por ser uma banda bem direta, que fala de maneira clara, objetiva e crítica junto à sua audiência. Em “Coma of Souls” não poderia ser diferente, quando logo na primeira estrofe Petrozza vocifera as primeiras linhas “Masters of war / Merchants of false peace” numa referência clara ao que aconteceu nos países do antigo bloco socialista, e em especial na URSS, quando os arsenais de guerra são vendidos sem nenhum controle por grandes comerciantes de armas, criando um mercado milionário de morte e destruição. Situação gravemente sentida com o fim da Alemanha Oriental em 1989, onde os soldados soviéticos estavam em situação de extrema penúria, e venderam tudo o que tinham nos acampamentos para guerrilheiros e terroristas dos mais variados lugares (MONIZ BANDEIRA, 2009, p. 200). Essa crítica fica ainda mais cristalina na continuação do verso "Breaking the rules /No matter who gets hurt /Wholesaling useless trash /Charging twice what it's worth
No trecho "Freedom of thought a mirage / The coma is endless and deep" fala-se sobre a maneira dos líderes, que conduzem seus países de maneira autoritária e personalista, não dando chance das pessoas pensarem por si próprias.

O refrão, entretanto, deixa no ouvinte mais perguntas do que respostas “Spirits on ice / They'll never be free / One-dimensional lives / Will the coma of souls outlive eternity”. A crítica ao fundamentalismo está aí, mas não fica claro quem o “eu poético” está criticando, deixando ao ouvinte (e aos pesquisadores) um amplo leque de opções. Podem ser tantos os terroristas islâmicos, quanto os exércitos americanos, quanto a guarda chinesa. As almas congeladas são uma metáfora para dizer que àquilo que as religiões deviam cuidar (as almas humanas) está em coma devido às ideologias e destruição a que elas estão sujeitas no plano material.
O mundo pós Guerra Fria tornou-se muito mais perigoso, inundado de armas (HOBSBAWN, 1995, p. 250-251). Há uma democratização dos meios de aniquilação, uma “privatização” dos mercados de morte, o que leva a situações como as relatadas nos versos “Children are pawns / For generals to play with and kill / Mercy will never be found / Where mayhem is done for the thrill”, uma imagem que amplamente conhecemos dos conflitos de guerrilha pelo mundo, com crianças segurando armamentos pesados, ensinados a odiar desde a tenra idade. Ensinados a matar, apenas porque o outro não segue o seu líder e seus preceitos religiosos/políticos.

No trecho “Righteous crusades / Murder to honor a god?” consolida  a mensagem da música, que trata das guerras religiosas, e novamente faz o ouvinte refletir sobre a necessidade de matar em honra de um deus. Esse trecho da canção é muito feliz quando se refere a deus e não a “Deus”, pois se distancia totalmente de qualquer religião, não trazendo qualquer julgamento de valor e sem dizer que esta ou aquela religião está certa.
O último verso da música é cantado de maneira diferente, e é onde o “eu poético” conclui seu raciocínio e alerta sobre a natureza humana que traz para o seio da religião a ideia de matar para doutrinar. Em “Deep in the unconscious mind / Lies the oldest wisdom” fala sobre como o ser humano sabe a resposta, dentro de cada ser, sem depender que profetas digam o que é certo ou errado. Na sequencia "Buried by centuries / Of war and inquisition" temos a primeira referência a alguma religião específica, quando fala sobre a inquisição, dizendo que a consciência humana ficou enterrada pela ideias do dogma católico.  “Truth is raped and crucified / By men with savage brains / And greed flows forth in endless waves / From fools to wretched slaves” finaliza reforçando a questão dos mercadores da morte, que criam cartéis, máfias e outras organizações criminosas ao redor do mundo, abastecendo as guerras religiosas que fazem milhões de vítimas por conta dos homens e seus desejos de poder.

Para encorpar essa letra cheia de críticas virulentas e questões inquietantes, o Kreator criou uma melodia intensa, com andamento muito acelerado, como era a característica mais marcante da banda até aquele período. As guitarras são a “alma” da canção, como começam rasgadas e furiosas, em riffs duplicados, acompanhados pela avalanche sonora despejada pela bateria. A intensidade não deixa dúvidas que a letra trata de um assunto que desperta sentimentos como a raiva e a angustia. Quando há a quebrada no andamento para a entrada da última estrofe, numa cadência que faz o ouvinte prestar mais atenção à letra, com ênfase na pronúncia das palavras. Quando a música volta ao andamento inicial, o vocalista Mille Petrozza berra de maneira desconcertante e alerta “Coma of Souls”. 

A pergunta suscitada pela canção ainda permanece sem resposta: O coma das almas sobreviverá eternamente?

Referências bibliográficas

CHRISTIE, Ian. Heavy Metal: a história completa. São Paulo: Editora Arx, 2010.

HOBSBAWN, Eric. Era dos Extremos: O Breve Século XX (1914-1991). São Paulo; Companhia das Letras, 1995.

MONIZ BANDEIRA, Luiz Alberto. A Reunificação da Alemanha: do ideal socialista ao socialismo real. 3ª edição, São Paulo: Editora Unesp; 2009.

NAPOLITANO, Marcos. A História depois do papel. In PINSKY, Carla Bassanezi (org.) Fontes Históricas. 2ª Edição, São Paulo: Contexto, 2010.
______. História e Música: História cultural da música popular. 3ª Ed. Belo Horizonte: Editora Autêntica, 2005.


domingo, 18 de agosto de 2013

Análise: Holy Wars... (Megadeth)

Após a análise das canções sobre o tema "Holocausto Nuclear", passaremos agora para as músicas que tratam do tema "Novas Ameaças" com foco principal nos grupos terroristas/fundamentalistas.  Segundo vários estudiosos, a fim da Guerra Fria tornou um mundo um lugar ainda mais violento, visto que os conflitos se espalharam pelo planeta, e principalmente nos países do extinto bloco socialista a venda de armamento a esses grupos terroristas se deu de maneira ampla e descontrolada.

Iniciaremos esse tópico analisando a canção "Holy Wars" do Megadeth.




Holy Wars...
Megadeth – Álbum: Rust in Peace (1990)

Brother will kill brother
Spilling blood across the land
Killing for religion
Something I don't understand

Fools like me, who cross the sea
And come to foreign lands
Ask the sheep, for their beliefs
Do you kill on God's command?

A country that's divided
Surely will not stand
My past erased, no more disgrace
No foolish naive stand

The end is near, it's crystal clear
Part of the master plan
Don't look now to Israel
It might be your homelands

Holy Wars!

Upon my podium, as the know it all scholar
Down in my seat of judgement
Gavel's bang, uphold the law
Up on my soapbox, a leader
Out to change the world
Down in my pulpit as the holier
Than-thou-could-be-messenger of God

(Tradução) Guerras Santas...

Irmão matará irmão
Derramando sangue pela terra
Matando em nome da religião
Algo que eu não entendo

Tolos como eu, que cruzam o mar
E chegam á terras estrangeiras
Pergunte ao rebanho, por suas crenças
Vocês matam em nome de Deus?

Um país que é dividido
Certamente não resistirá
Meu passado se apagou, chega de desgraça
Não resta nenhum tolo

O fim está próximo, é evidente
Faz parte do plano mestre
Não olhe agora para Israel
Ela poderia ser sua terra natal

Guerras Santas!

Sobre o meu palanque, enquanto o Sábio estadista
Senta no banco do meu julgamento
A batida do martelo, apóia a lei
Em minha saboneteira, um líder
Determinado a mudar o mundo
Aqui em meu púlpito enquanto uma pessoa
Mais santa que você, pode ser o mensageiro de Deus
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Análise:

Os conflitos e guerras são movidos por diversos motivos, mas um em especial foi amplamente abordado pelas bandas de Thrash: a guerra religiosa. A região do Oriente Médio, a dissolução da Ioguslávia, e o conflito entre católicos e protestantes na Irlanda são exemplos. É sob este prisma que o Megadeth compõe “Holy Wars”, certamente um clássico definitivo da banda, e também da história do Thrash Metal.

Em  tempo, a canção chama-se “Holy Wars... the punishment due”, e na verdade são duas músicas diferentes que compartilham a mesma melodia. mas o que interessa para a análise é a primeira parte. A segunda parte, segundo Dave Mustaine, fala sobre o herói dos quadrinhos “The Punisher” (o Justiceiro).

Utilizando citações do autor da canção, a música foi criada primeiramente devido ao conflito entre católicos e protestantes na Irlanda. Dave Mustaine certa vez em turnê por aquele pais, viu que havia material da banda vendido sem licença e ouviu do vendedor que era para “causa” do IRA, e segui-se uma pequena síntese  dos conflitos de católicos contra protestantes. O próprio Dave Mustaine tem ascendência irlandesa, e acabou sendo banido da Irlanda por uma década por uma confusão causada em um show em 1988, quando disse que não entendia como uma religião poderia criticar a outra. Esse incidente o teria inspirado a escrever “Holy Wars”.

Junte a isso uma crescente onda de ataques terroristas no oriente médio, as Guerras entre Irã e Iraque, bem como a dissolução do bloco soviético que gera um armamento descontrolado dos países fundamentalistas, ajudaram Mustaine na composição. Citação do próprio autor, diz que não entende como pessoas como Muamar Khadafi (que foi presidente da Líbia entre setembro de 1969 até ser morto pela revolução em agosto de 2011) ou o Aiatolá Khomeine (Líder religioso e político do Irã, entre dezembro de 1979 até ser morto pela revolução em 03 de outubro de 1989) não ligam para seu povo e os jogam numa suposta guerra por motivos religiosos, quando querem apenas se perpetuar no poder a qualquer custo.

Logo a primeira estrofe da canção traz toda a essência da ideia contida nela: “Brother will kill brother / Spilling blood across the land / Killing for religion / Something I don't understand”. Segundo o compositor, a letra não fala de nenhum conflito em especial, mas da inconcebível noção de guerra religiosa, uma vez que as religiões deveriam trazer paz ao espírito humano, e não fazê-los se matarem. Esta frase inicial remete ao acontecido com o próprio Mustaine no episódio da Irlanda em 1988. E continua uma referência pessoal na passagem "Fools like me, who cross the sea / And come to foreign lands", certamente falando sobre a imigração de sua família para os EUA, mas ainda assim acabam sendo atingidos pelo conflito religioso de uma maneira ou de outra. Isso, certamente, se estende a outros imigrantes das mais diversas etnias.

Nas linhas “A country that's divided /Surely will not stand” podemos visualizar muito claramente a situação de diversos países envoltos em guerras religiosas, como os já citados anteriormente.  E embora haja uma referência literal à Israel no trecho “Don't look now to Israel /It might be your homelands”, o contexto da música dá a entender que está falando sobre o berço de todas as religiões monoteístas, e que estão constantemente em guerras à séculos.

Essa ideia se mostra correta quando atentamos que o nome da canção está no plural, pois também são plurais as religiões e seus conflitos históricos. Há uma crítica muito clara aos governos teocráticos, quaisquer que sejam, usando a religião para fazer política, evidenciada na passagem “Down in my pulpit as the holier /Than-thou-could-be-messenger of God”, pois esses líderes discursam em nome de Deus, mas governam em proveito próprio.

Analisando os parâmetros melódicos, podemos dizer, sem medo de errar, que “Holy Wars” figura entre os chamados “hinos” do Thrash Metal. Os riffs iniciais da canção, onde as guitarras de Dave Mustaine e Marty Friedman entram limpas e ao mesmo tempo nervosas, se tornaram quase sinônimo do Metal praticado naqueles anos. Tanto que a introdução da música foi utilizada pela Rede Globo para as chamadas do Rock in Rio II em 1991, onde se apresentou o Megadeth.

A velocidade apoteótica é quebrada pela guitarra acústica, quando a segunda parte, já mais cadenciada, se inicia para Mustaine declamar a ultima estrofe, como quem realmente faz um discurso.

A massa sonora produzida pela banda, bem como as quebras de andamento, e os riffs poderosos, aliados a partes melódicas que levam o ouvinte a experimentar a tensão da guerra, a raiva e o êxtase, tornam essa canção uma das mais técnicas e representativas do Megadeth.

Um documento que ainda hoje reverbera para a audiência, tendo visto que os conflitos religiosos, com o acirramento de ânimos por todos os lados, ainda fazem milhões de vítimas ao redor do planeta.

REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS



CHRISTIE, Ian. Heavy Metal: a história completa. São Paulo: Editora Arx, 2010.

 HOBSBAWN, Eric. Era dos Extremos: O Breve Século XX (1914-1991). São Paulo; Companhia das Letras, 1995.

 MEYER, Michael. 1989: o ano que mudou o mundo: a verdadeira história da queda do Muro de Berlim. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2009.

 NAPOLITANO, Marcos. A História depois do papel. In PINSKY, Carla Bassanezi (org.) Fontes Históricas. 2ª Edição, São Paulo: Contexto, 2010.

______. História e Música: História cultural da música popular. 3ª Ed. Belo Horizonte: Editora Autêntica, 2005.


 <www.megadethbrasil.com >. Acesso em: 06 jun 2010