Iniciaremos
com alguns esclarecimentos: Primeiro, que esta canção figura dentro do álbum
como uma espécie de prelúdio para a canção “Rust In Peace... Polaris”; Segundo,
que de acordo com David Ellefson (que assina sozinho a letra e música, algo único para o Megadeth), ela fala sobre o mundo após uma devastação, que provavelmente seria por uma guerra nuclear, mas isso não é explicito.
Importante
definirmos que o ouvinte “ouve” a canção, nem sempre com os mesmos ouvidos do
seu compositor:
(...) o universo de recepção dos cantores, musicistas e
compositores e o universo de recepção da audiência mais ampla (os chamados
“ouvintes comuns”) não podem ser vistos de maneira dicotômica nem
generalizante, mesmo dentro do mesmo momento histórico, cuja configuração é
sempre complexa e nunca completamente determinada por forças estruturais que
estariam por trás dos fatos. (NAPOLITANO, 2005, P.83)
Nem sempre
a intenção por trás de uma composição será captada da mesma maneira pela
audiência, bem como o sentido original de uma certa composição se altera com o
passar dos anos, visto à pluralidade de interpretações que este tipo de
material está sujeito.
A canção
tem uma construção melodia muito simples, com uma linha de baixo e bateria
cadenciada, repetitiva, quase hipnótica durante os 1:50 minutos da música,
aliada a uma vocalização sinistra, dão um clima de suspense e certo terror à
faixa.
O texto
está escrito em forma de uma parábola fantasiosa, que leva o ouvinte para um
tempo e espaço deslocado, mas que ao mesmo tempo pode ser aplicado ao mundo
imediato. A primeira
estrofe traz os versos “Thermal count is
rising / In perpetual writhing”, que nos remete automaticamente ao problema
do aquecimento global.
A segunda
estrofe continua com o tom soturno “Awakened
in the morning / To more air pollution warnings”, e traz um choque entre
uma fantasia criada pela canção, mas o cotidiano, onde todos os dias o homem
comum vê nos noticiários (principalmente os matutinos) sobre a qualidade do ar
nas cidades (algo muito comum ainda hoje). As linhas que seguem, “Still we sleepwalk off to work / While our
nervous systems jerk”, dando indícios de como vive essa sociedade, que
acorda muito cedo (ainda sonolentos) para irem ao trabalho, enquanto a poluição
causa danos à saúde. Nota especial para a forma que o narrador repete a palavra
“nervous”, como se estivesse realmente com um “tique nervoso”.
Tal como as
análises do Kreator sobre o assunto, a canção do Megadeth também menciona o
passado que se repete quando cita “Pretending
not to notice / How history had forebode us”, mostrando que o homem parece
incapaz de aprender com os próprios erros, e pior, ainda finge não notar o que
está acontecendo. E a estrofe termina de maneira categórica, falando “With the
greenhouse in effect / Our environment was wrecked”.
A última
estrofe faz um resumo perfeito, tanto da ideia quanto do estilo da composição.
O sarcasmo contido em “Now I can only
laugh / As I read our epitaph”, onde o narrador dá até uma “risadinha” ao
declamar o primeiro verso. E a canção termina falando sobre viver a vida como
topeiras, ou seja, viver no subsolo, visto que a superfície não será mais
segura para a humanidade, e saindo ainda sob a escuridão, o que provavelmente
significa fugir dos efeitos nocivos da radiação solar.
Uma canção
muito icônica, que traz um pouco de ficção para tratar de temas reais, com uma
letra inteligente e de humor cítrico, faz o ouvinte refletir sobre viver num
mundo onde o meio ambiente foi destruído pela própria ação humana.
Referências bibliográficas
CHRISTIE,
Ian. Heavy Metal: a história completa. São Paulo: Editora Arx, 2010.
HOBSBAWN,
Eric. Era dos Extremos: O Breve Século XX (1914-1991). São Paulo; Companhia das
Letras, 1995.
NAPOLITANO,
Marcos. A História depois do papel. In PINSKY, Carla Bassanezi (org.) Fontes
Históricas. 2ª Edição, São Paulo: Contexto, 2010.
______.
História e Música: História cultural da música popular. 3ª Ed. Belo
Horizonte:
Editora Autêntica, 2005.
<http://www.megadethbrasil.com/materias/materia.php?id=2> acessado em 20 Jun 2011
Savage heat is
searing
Global warming has begun
Mother Earth is reeling
No protection from the sun
Forest fires are raging
While the rivers turn to ice
Foolish man creating
Mother Nature's cruel demise
Hailstorms,
tornadoes
Cold spells, untimely frosts
Heat waves and blizzards
Global death's the cost
Faces
the end of time
As we plunge headlong towards the day
Can't deny the signs
When the sun burns red
The earth will turn
From blue to gray
Winter
turns to summer
Then the seasons disappear
No one needs a prophet
To explain what's all too clear
Oceans overflowing
Islands drowning everywhere
Leaders wouldn't admit it
Now they're crying in despair
Hailstorms,
tornadoes
Cold spells, untimely frosts
Heat waves and blizzards
Global death's the cost
Face the
end of time
As we plunge headlong towards the day
Can't deny the signs
When the sun burns red
The earth will turn
From blue to gray
Now rain shall wash away sad remains of man
Cities once so proud will crumble into sand
Buildings all collapse when all is done and said
The guilty ones will die with the innocent...
When the sun burns red
Quando o Sol queima vermelho (tradução)
O calor
selvagem é escaldante
O
aquecimento global já começou
A Mãe Terra
está cambaleando
Sem proteção
contra o sol
Os incêndios
florestais estão ferozes
Enquanto os rios virar gelo
Homem
insensato criando
morte cruel
da Mãe Natureza
Granizo,
tornados
Frentes
frias, geadas prematuras
As ondas de
calor e tempestades de neve
Morte Global
é o custo
Faces do fim
dos tempos
Como
mergulhamos de cabeça para o dia
Não se pode
negar os sinais
Quando o sol
queima vermelho
A Terra vai
transformar
de azul para
cinza
Inverno se
transforma em verão
Em seguida,
as estações desaparecer
Ninguém
precisa de um profeta
Para
explicar o que está tudo tão claro
Oceanos
transbordando
Ilhas
submergindo por toda parte
Líderes não
admitiriam isso
Agora eles
estão chorando em desespero
Granizo,
tornados
Frentes
frias, geadas prematuras
As ondas de
calor e tempestades de neve
morte Global
é o custo
Faces do fim
dos tempos
Como
mergulhamos de cabeça para o dia
Não se pode
negar os sinais
Quando o sol
queima vermelho
A Terra vai
transformar
de azul para
cinza
Agora a
chuva limpará os tristes restos do homem
Cidades
outrora tão orgulhosas desmoronarão na areia
Todos os
edifícios caem quando tudo é feito e dito
Os culpados
vão morrer com os inocentes ...
Quando o sol queima vermelho
________________________________________
Análise:
A questão
ambiental vinha tornando-se bandeira da contracultura desde o fim dos anos 60. E só analisarmos os movimentos hippies, por exemplo. Contudo, esses movimentos,
principalmente no âmbito musical, ainda estavam permeados de temas etéreos, por
influência dessa própria cultura.
A partir
dos anos 80, temos uma mudança na abordagem dos problemas ambientais, com a
proliferação dos grupos de defesa e leis mais duras acerca da degradação da
natureza, bem como a mundialização dessa discussão, pois com o fim do bloco
soviético verificou-se que a poluição, escassez de recursos naturais e ameaça à
vida do homem, eram um problema que transcendia as ideologias
político/econômicas e culturais.
Dentro
desse contexto, a canção “When Sun Burns Red” dos alemães do Kreator alerta
para um problema central dentro do movimento ambientalista: o aquecimento
global.
Expressões
como Efeito Estufa, Camada de Ozônio, CFC (clorofluorcarbono) tornaram-se
corriqueiras desde os telejornais até as cartilhas escolares. Rapidamente, o
mundo inteiro tomava ciência de estudos que apontavam para um aumento
exponencial da temperatura terrestre, o que poderia acarretar à existência
humana.
Antes de
continuarmos, vale ressaltar que não tratamos aqui de uma discussão sobre o
tema Aquecimento Global, e sim, sobre o impacto dele sobre a cultura e o
imaginário da época analisada.
A
partir de 1990, não houveassunto que
frequentasse com mais assiduidade as páginas de ciência da grande impressa,
tanto aqui (Brasil) como no restante do mundo, que o aquecimento global. (...)
Há inúmerasindicaçõesde que esse aumento seja devido às atividades
humanas, principalmenteaquelas que
envolvem a queima de petróleo e carvão, emitindo gases conhecidos como efeito
estufa. No entanto, o sistema climático é muito complexo, podendo haver outras
causas para as variações de temperatura observadas, de modo que a relação
direta de causa do efeito estufa na atmosfera do século XX e o aumento da
temperatura nesse mesmo período continua sendo objeto de estudo e debate entre
os cientistas. (OLIVEIRA, 2008)
Dito
isso, vejamos o discurso contido na canção, que enfatiza a preocupação do homem
comum, bombardeado com notícias catastróficas todos os dias sobre os efeitos do
aquecimento global durante o início dos anos 90.
As duas
primeiras linhas já dizem diretamente sobre o tema, quando fala do calor
escaldante e que o “aquecimento global já chegou”. Essa visão absolutamente
fatalista, estava apoiada em ideias amplamente baseadas no primeiro relatório
da IPCC (sigla em inglês para Painel Intergovernamental sobre Mudanças
Climáticas) de 1988, o clima do planeta subia de maneira acelerada, o que
causaria efeitos desastrosos, como enchentes, secas, aumento do câncer de pele,
calor intenso em partes do globo e frio intenso em outras.
A letra
continua falando sobre detalhadamente sobre as consequências do efeito estufa,
tais como a destruição da camada de ozônio quando diz "Mother Earth is reeling / No protection from
the sun". E aqui temos mais uma característica das músicas do Kreator,
que é mistura entre o real e o sobrenatural. Quando se refere à “Mãe Terra”,
remete a ideia de povos que cultuam a Terra como uma divindade (inclusive,
remetendo aos próprios hippies dos anos 60).
O bridge traz uma sequencia de desastres
ambientais, como resultado do aquecimento global, e nos leva ao refrão
fatalista, iniciando com a frase "Faces
the end of time", mostrando que o ser humano estava encarando um
período de destruição. O refrão termina ratificando o tom fatalista, dizendo
que o planeta vai queimar até virar cinzas: "When the sun burns red / The earth will turn / From blue to gray"
Os
efeitos da alteração climática continuam enumerados na letra, e de tão claros,
não precisam de “profetas” para alertar o que está por vir: "No one needs a prophet To explain what's all
too clear".A segunda
estrofe termina, como característica do Kreator, com uma crítica à inércia dos
governantes quando diz "Leaders
wouldn't admit it / Now they're crying in despair"
A última
estrofe conclui mostrando que o planeta será destruído, e a raça humana terá
desaparecido, enquanto suas cidades e monumentos vão se degradar: "Now rain shall wash away sad remains of man
/ Cities once so proud will crumble into sand / Buildings all collapse when all
is done and said". E a letra finaliza com mais uma crítica fatalista, como
todo o tom da canção, quando diz "The
guilty ones will die with the innocent...When the sun burns red", ou
seja, no fim de tudo, os que causaram, os que deixaram e os que não tiveram qualquer
ação sobre o aquecimento global, vão se sujeitar à destruição da humanidade da
mesma forma.
A parte
melódica é muito bem trabalhada para dar à letra a dimensão fatalista. A
começar pelo início acústico, com uma melodia inquietante, que deixa o ouvinte sob tensão, numa espera angustiante sobre o que vai acontecer. E então entram as guitarras elétricas com
seus riffs frenéticos, juntamente com a bateria que parece uma avalanche sonora. E de
repente, um grito totalmente raivoso se rompe entre os instrumentos, dando um
ar desesperador à canção.
A música
segue esse andamento acelerado até a parte dos solos de guitarra, quando o
andamento entra num ritmo mais cadenciado para cantar a última estrofe,
retornando ao ritmo frenético para o encerramento da canção.
Como dito
logo no início, a canção nos serve como um registro para analisar preocupações
da época, e não para discutir se as análises acerca do aquecimento global estão
certas ou erradas. O mais valioso no discurso em “When the Sun Burns Red” é a
forma como o Kreator absorveu toda uma preocupação acadêmica e cotidiana da
época, e como isso influenciou as pessoas a partir de então.
Ainda em
2014 estamos longe de chegar a uma conclusão sobre as causas do aquecimento
global, pois existem teorias variadas todo o tipo de justificativa (fatalistas,
céticos, ambientalistas, industrialistas, direitistas, esquerdistas, e por ai
vai). O que não se nega, evidentemente, é que o ser humano é o único que pode
fazer algo a respeito, seja para evitar, seja para contornar a situação, criada
por ele ou não.
Referencias:
CHRISTIE,
Ian. Heavy Metal: a história completa. São Paulo: Editora Arx, 2010.
HOBSBAWN,
Eric. Era dos Extremos: O Breve Século XX (1914-1991). São Paulo; Companhia das
Letras, 1995.
MONIZ
BANDEIRA, Luiz Alberto. A Reunificação da Alemanha: do ideal socialista ao
socialismo real. 3ª edição, São Paulo: Editora Unesp; 2009.
NAPOLITANO,
Marcos. A História depois do papel. In PINSKY, Carla Bassanezi (org.) Fontes
Históricas. 2ª Edição, São Paulo: Contexto, 2010.
______.
História e Música: História cultural da música popular. 3ª Ed. Belo
Horizonte:
Editora Autêntica, 2005.
OLIVEIRA,
Simone Maria de Barros. Base Científica para compreensão do Aquecimento Global.
in VEIGA, Jose Eli da. (org) Aquecimento Global. São Paulo: Editora Senac; 2009
.
Fatal Energy Kreator – Álbum:
Extreme Agressions (1989)
Lies, I can't stand these lies anymore
These tales about a better world
A better world for you and me
Hate, our hate is growing, that's for sure
Future thoughts fill us with rage
Uncertainty about our fate
Cry out in fear of the future
Cry out in fear of the unknown
Cry out in fear of our planet
That the human race calls its own
(chorus)
And the gods are watching from lofty
places
Indifferent to you and me
I wonder if their creations can
handle
The violent forces of fatal energy
Violence, cruel violence, in the minds of all
The killer instinct is still intact
It never leaves our minds alone
Greed, our greed will cause us to fall
Destroy the land of unborn sons
I hear them cry, I hear them call
Creaming in desperation
Screaming from hunger and pain
Scream for relief from this misery
Searching for someone to blame
(chorus)
Easy, it's so easy to control our fate
Turn the world into a bomb
That destiny will detonate
Tomorrow, tomorrow it will be too late
When the children cry in fear of death
A horrid death they can't escape
Crying tears of confusion
Crying for they don't understand
Crying because their young lives
Will be taken by their creators' hands
(chorus)
Energia Fatal (tradução)
Mentira, eu não aguento mais essas mentiras
Estes contos sobre um mundo melhor
Um mundo melhor para você e para mim
Ódio, nosso ódio está crescendo, isso é certo
Pensamentos futuros enchem-nos com raiva
Incerteza sobre o nosso destino
O grito de medo do futuro
O grito de medo do desconhecido
O grito de medo do nosso planeta
Que a raça humana chama seu próprio
(refrão)
E os deuses estão assistindo de
lugares sublimes
Indiferente a você e eu
Eu me pergunto se suas criações podem
suportar
as forças violentas de energia fatal
Violência, violência cruel, nas mentes de todos
O instinto assassino ainda está intacto
Ele nunca deixa a nossa mente só
Ganância, nossa ganância nos fará ruir
Destruir a terra dos filhos por nascer
Eu os ouço chorar, eu os ouço chamar
Borrando em desespero
Gritando de fome e dor
Grite para o alívio da miséria
Procurando alguém para culpar
(refrão)
Fácil, é tão fácil de controlar nosso destino
Transformar o mundo em uma bomba
Esse destino vai detonar
Amanhã, amanhã será tarde demais
Quando as crianças choram com medo da morte
Uma morte horrível que eles não podem escapar
Choro lágrimas de confusão
Chorar por que eles não entendem
Lamento porque as suas jovens vidas
serão tiradas pelas mãos de seus criadores
(refrão)
_________________________________________
Análise
O mundo mudou radicalmente depois de 26 de abril de 1986. O
acidente na usina de energia nuclear de Chernobyl (atual Ucrânia, antes, parte
da URSS) foi tão catastrófico que associou a energia nuclear à coisas negativas
instantaneamente. Prova de como isso influenciou a cultura popular é só
verificarmos a usina onde trabalha Homer Simpson (a série começou a ser
produzida em 1989).
Durante aqueles dias não se falou de outra coisa a não ser
da “Nuvem Radioativa” que varreu a cidade. O pânico tomou a Europa, pois os
ventos dissiparam os resíduos da usina para a parte ocidental do continente. A
radiação causou milhares de mortes diretas, outras milhares indiretas, e ainda
causará outras tantas, segundo especialistas.
O impacto desse evento, como já dito anteriormente, foi
muito discutido em todos os âmbitos da cultura popular (o já citado exemplo da
série animada “Os Simpsons”). Juntemos ainda a questão do medo do “Holocausto
Nuclear” (tema abordado em postagens anteriores). Obviamente a música não
ficaria de fora desse assunto, e mais precisamente, o Thrash Metal.
O Kreator foi a banda que tratou mais especificamente desse
assunto, em sua canção “Fatal Energy”
do álbum Extreme Agressions de 1989.
A abordagem típica dos alemães já começa com uma crítica ao
sistema: “Lies, I can't stand these lies
anymore / These tales about a better world /A better world for you and me”.
Uma visão totalmente pessimista a respeito da proliferação das usinas de
energia nuclear. Embora essas usinas tenham nascido da necessidade crescente
por energia para que o mundo continuasse no processo de industrialização que
marcou o período posterior à Segunda Guerra Mundial, e que por uma série de
avanços tecnológicos possam ser consideradas “limpas” e seguras, o ranço contra
a palavra “nuclear” sempre esteve associado a elas (MAGALHAES, 2007)
Porém, o acidente da usina de Chernobyl coloca a energia
nuclear definitivamente como uma “vilã” para a humanidade. Não só pelas
questões ambientais já inerentes à atividade (a questão dos resíduos gerados, o
Lixo Nuclear, que não podem ser descartados de qualquer maneira), mas pelos riscos
humanos envolvidos.
Sob essa ótica, o Kreator continua o tom apocalíptico da
canção em toda a segunda estrofe, onde a palavra “grito” assume um sentido de
alerta. O futuro é incerto ou tenebroso quando observam os efeitos
catastróficos de um acidente como em Chernobyl.
O refrão diz que os deuses são indiferentes aos humanos, que
não podem suportar os efeitos nocivos da energia fatal. A construção lírica é
muito característica do Kreator, juntando o místico e o mundano (tal como em
“Toxic Trace” e “Awakening of the gods”, por exemplo) para fazer uma crítica
social.
A frase da terceira estrofe que mais chama a atenção é “Greed, our greed will cause us to fall” como uma acusação
contundente à forma como a humanidade cria problemas para ela mesma, como no
caso da energia nuclear, em nome do progresso e do lucro. A indignação continua
nas duas linhas subseqüentes, quando se fala da destruição do mundo onde nossos
descendentes viveriam, condenando-os a uma vida de desgraça: “Destroy the land of unborn sons / I hear
them cry, I hear them call”
A quarta estrofe é também perturbadora, desenvolvendo a
ideia da estrofe anterior e novamente usando a palavra “gritar” para chamar a
atenção. Passa a ideia de degradação, na utilização de palavras para compor uma
imagem: desespero, fome, dor, miséria.
As últimas estrofes da canção concluem a ideia desenvolvida.
A quinta estrofe começa com as linhas “Easy,
it's so easy to control our fate /Turn the world into a bomb /That destiny will
detonate”. Aqui estão falando sobre a proliferação das usinas de energia
nuclear por todo o planeta, transformando-o numa “grande bomba”. Vale lembrar
que ainda no momento que essa canção foi escrita, a Guerra Fria ainda não
estava terminada, embora caminhasse rapidamente para o fim. Mas talvez, por
isso mesmo, o medo de desastres como os de Chernobil fossem ainda mais
justificáveis. O acidente na cidade ucraniana só aconteceu porque (dentre
alguns dos motivos, que não teria espaço para elencar aqui) a manutenção da
usina era deficitária. A falta de dinheiro na URSS nos anos finais da Guerra
Fria (HOBSBAWN,1995, p. 250) certamente está ligada ao abandono da usina de
Chernobil, dentre outros programas antes centrais na política soviética.
A sexta estrofe fala de maneira aguda sobre o destino das
vidas afetadas pelo acidente nuclear. Os efeitos devastadores serão sentidos por
muitas gerações, que, conforme a letra diz, já estão condenadas mesmo antes do
nascimento. A palavra choro (ou lamento) está empregada com o sentido fúnebre,
quando estamos diante de um estado desolador causado pelos desastres das usinas
nucleares.
A canção “conversa” intimamente com a canção “Toxic Trace”,
mas traz o Kreator tratando do tema de maneira menos direta, fazendo uso de
mais figuras de linguagem e artifícios líricos para criar o seu argumento. Mas
ainda assim, traz vários elementos tipicamente encontrados na discografia dos
alemães até aquele período.
O disco Extreme Agressions,
levou o Kreator a um novo patamar melódico, onde podemos perceber que as
composições são mais complexas, aumentando a diversificação dos arranjos. A
canção “Fatal Energy” começa com
guitarras em harmonia, que depois perpassam por momentos mais secos e rápidos,
e momentos mais melódicos. As quebras de andamento, características do Thrash
Metal oitentista, estão presentes também nesta canção, e levam o ouvinte numa
sucessão de tempos, até reiniciar para o riff
inicial e conduzir a canção para a conclusão da ideia contida na parte lírica.
As questões abordadas nesta música retornaram com muita
força após o acidente na usina energética de Fukushima em 2012. Vamos países
voltaram a debater os riscos da produção da energia nuclear, e muitos governos
(como a Alemanha, por exemplo) resolveram desativar algumas delas.
Prova de que o debate sobre a segurança da utilização desta
fonte energética ainda está muito longe do fim, e os seres humanos ainda não
sabem conter as forças devastadoras da fissão nuclear, que gera resíduos
tóxicos e pode causar desastres incalculáveis para a natureza e para a
humanidade.
Referencias
bibliográficas:
CHRISTIE,
Ian. Heavy Metal: a história completa. São Paulo: Editora Arx, 2010.
HOBSBAWN,
Eric. Era dos Extremos: O Breve Século XX (1914-1991). São Paulo;
Companhia das Letras, 1995.
MAGALHÃES,
Gildo. Energia, Industrialização e a Ideologia do progresso. Projeto
História, São Paulo, n.34, p. 27-47 , jun. 2007. Disponível em <http://revistas.pucsp.br/index.php/revph/article/view/2465>.
Acesso em 12 jul.2011.
NAPOLITANO,
Marcos. A História depois do papel. In PINSKY, Carla Bassanezi (org.)
Fontes Históricas. 2ª Edição, São Paulo: Contexto, 2010.
______. História
e Música: História cultural da música popular. 3ª Ed. Belo Horizonte:
Editora Autêntica, 2005.
<http://infoalternativas.blogspot.com.br/2013/04/artigo-cientifico-mostrando-como-o.html>
acesso em 12.dez.2013
Poluição total, a Terra não suporta
por muito mais tempo
A indústria química traz novas
doenças
O medo de autodestruição está se
tornando mais forte
Lixo nuclear numa avalanche
incontrolável
Reduz a Terra a um planeta sem ar
A reforma se mantém distante
Agora é a nossa única chance para
salvá-la
Contaminação em todo lugar
Condena a raça humana
Tudo irá decair
Desmoronado pelo rastro tóxico
Novas pragas vieram e logo haverá
mais
Apocalipse não é pela primeira vez
Supressão está viva e isto é certo
Todos serão aniquilados
Imposição do último eclipse
Não se pode ignorar as predições do
passado
Ignorar os avisos de profetas anciãos
Cada minuto de sua vida pode ser o
seu último
Contaminação em todo lugar
Condena a raça humana
Tudo irá decair
Desmoronado pelo rastro tóxico
Metamorfose da Terra em um deserto
sem vida
Voracidade por riqueza, ruína da
humanidade
Desejando mais e mais, até o Réquiem
do mundo
Este é o último século da Terra
Agora, a privação das coisas que
proporcionam
uma vida fácil para mim
Confusão total para os que não
acreditam
E que ignoram as escritas na parede
Tempos de sofrimento para todos
Ninguém pode se esconder da realidade
Injustiça social não mais existirá
Sem exceção, devasta a todos
Os tempos mudaram do passado para
agora
A Terra é assunto da humanidade
A criação perfeita se mantém acima de
todos
Experimentos com objetos letais
Dominação, submissão, demanda por
mais
Desumaniza o cérebro dos governantes
O que os dá o direito de ameaçar a
todos nós?
Esse tempo virá mas aí será tarde
demais
________________________________________
Análise:
Dos anos 80 para os anos 90 do
século XX aumentou enormemente a distância entre ricos e pobres, e a exploração
desenfreada dos recursos naturais começou a chamar a atenção de todos para um
futuro apocalíptico.
As preocupações com o meio ambiente são marcantes na discografia do Kreator,
pois vivendo na cidade industrial Essen (decadente e suja, num dos maiores
pólos industriais da Alemanha), suas letras abordam o que se enxerga através da
janela das casas. Além do fato de seu país ter arcado com um grande custo para
restaurar o meio ambiente devastado da RDA após a reunificação (MONIZ BANDEIRA,
2009. p 190).
“Toxic Trace”, do álbum “Terrible Certainty”,
é um grito para que as pessoas prestem atenção na degradação do meio ambiente,
principalmente pelas grandes fábricas.
Nas
primeiras linhas o mote geral da canção já fica bem claro: "Pesticide in torrents, how fast it flows /
Total pollution the earth can't stand much longer". O problema dos
dejetos industriais e residenciais tornam-se um grande martírio para as
populações dos grandes centros urbanos, e a destruição dos recursos naturais,
como os rios de água potável, entram na pauta de discussões acadêmicas,
políticas e cotidianas.
A canção
segue “The fear of self-destruction is
growing stronger / Nuclear waste in an uncontrolled deluge / Reduces the earth
to an airless planet”, onde há citação à devastação nuclear e à
autodestruição da humanidade como conseqüências drásticas do modo de produção
industrial a que estamos submetidos. Haja vista que ainda no fim dos anos 80 do
século XX a energia nuclear era utilizada amplamente em vários países do mundo,
mas tinha o problema dos resíduos tóxicos que não recebiam o destino correto.
(o Kreator voltará a esse tema com mais ênfase no álbum posterior)
Mantidas as
taxas de crescimento econômico/industrial que impulsionaram o mundo após a
Segunda Guerra Mundial, o planeta não suportaria as conseqüências catastróficas
ao meio ambientes que tal “crescimento” iria impor. (HOBSBAWN, 1995, p.547). E
sob essa ótica o Kreator conduz o refrão da música: “Contamination in every place / Condemn the human race / Everything will
decay / Broken down by toxic trace”.
A questão
do “rastro tóxico” é muito emblemática, pois é uma figura de linguagem que nos
remete às grandes chaminés expelindo aquela fumaça negra. Ou talvez, dejetos
jorrando através de um cano diretamente dentro de um rio. São imagens
rapidamente associadas à fase do Capitalismo Industrial, e tornaram-se a imagem
da degradação da natureza. O Vale do Ruhr, onde está a cidade de Essen, é um
desses distritos “clássicos” do Capitalismo Industrial, com suas indústrias de
carvão e aço, e a fuligem compõe a paisagem local.
A partir da
segunda estrofe a letra assume mais um componente: a ideia de que o que houve
no passado voltará a acontecer. “New
plagues have come and soon there'll be more / Apocalypse not for the first time”,
mostram uma visão de história cíclica (típica de civilizações politeístas, como
Romanos, Maias, Astecas, Hindus, Xavantes, etc).
Existe uma
correlação entre a degradação da natureza e a incapacidade do homem aprender
com os erros de civilizações passadas, descritas no trecho “Enforcement of the last eclipse / Can't
ignore predictions from the past / Ignore the warnings of ancient Prophets /
Every minute of your life could be your last”. Sem citar literalmente
nenhum povo em especial, aborda uma teoria que pode explicar, por exemplo, o
declínio de civilizações como os Rapanui (na Ilha de Páscoa, no Chile) ou dos
próprios Maias, que esgotaram seus recursos naturais e tornaram-se vítimas do
seu próprio modo de vida. Uma outra leitura possível se baseia exatamente na
ideia de “ciclos”, onde essas antigas civilizações faziam previsões de
apocalipses antes de recomeçar um novo ciclo.
Quando na
canção diz que não se pode ignorar as previsões feitas no passado, não há como
não fazer uma analogia às “profecias” maias sobre o fim do mundo, com
catástrofes climáticas que devastarão a humanidade. Mas entra um elemento mais
humano do que sobrenatural, onde o Kreator trata que o próprio homem tem
causado esses desastres quando degrada o seu meio natural.
O bridge[1]
cristaliza o conceito nos versos do “Metamorphoses
of the earth to a lifeless desert / Voracity for richness, ruin of Mankind”,
falando que a sanha dos homens por obter mais lucro não leva em consideração a
sua própria preservação.
O andamento
da música muda, e o eu poético já fala de um mundo devastado, onde a tecnologia
não existe mais, nem as coisas que a produção industrial cria para dar conforto
para a sociedade: “Now depravation from
things that count,to make an easier life for me.”
A estrofe
segue falando sobre as pessoas que não acreditavam que seria possível a
destruição do estilo de vida industrial: “Total
confusions for the non-believers / who ignore the writings on the wall”.
Essa passagem, particularmente, tem um sentido mais espiritual, mas se
observarmos mais atentamente, podemos entender os descrentes são os entusiastas
do progresso a qualquer custo, e as escritas nas paredes podem ser as pichações
que se multiplicam pelo mundo pelos movimentos ambientalistas.
O colapso
da humanidade vai terminar com as lutas entre as classes, pois todos vão
perecer. Essa visão de destruição total de todos os seres humanos é uma das
marcas do Kreator, e está presente na canção nos versos “Social injustice will be no more, without exception, devastate all”
A última
estrofe fecha a canção de maneira intensa, crítica e tremendamente raivosa.
Fala sobre “experimentos com objetos letais” e provavelmente estão falando
sobre energia nuclear e combustíveis fosseis, onde a “demanda por mais” força
os humanos a se destruírem. E como não poderia faltar, há uma crítica
contundente aos governos, que não pensam em nada além dos lucros e dos
interesses das grandes corporações, sem pensar na preservação da humanidade e
dos recursos naturais.
A música
está dividida em três partes bem distintas, sob o ponto de vista melódico. A
introdução é cadenciada, ditado sob o ritmo do riff marcante das guitarras. Há a quebra com uma pausa curta, e
inicia a segunda parte com um ritmo muito mais acelerado, com o início da parte
cantada, voltando para a cadência da introdução no momento do bridge (2:02” até 3”) quando há uma nova quebra na
melodia para cantar a 3 estrofe (3”
até 3:59”) voltando a música retornando à segunda parte melódica e finalizando
novamente com a melodia da terceira parte.
As
guitarras são a alma da canção, conduzindo as ações dentro da melodia,
cadenciando e acelerando. A bateria acompanha essa linha, criando uma música
uma música com camadas sonoras homogêneas, onde todos os instrumentos
contribuem para a construção do clima. O vocal esganiçado acompanha esse ritmo,
dando uma textura raivosa à canção, que impõe a força ao discurso contido na
parte lírica.
Com riffs
poderosos e rápidos aliados a uma construção melódica complexa, “Toxic Trace” é
uma canção crítica aos interesses econômicos em detrimento do bem-estar da
humanidade como um todo. Mas felizmente muito se avançou nas questões do
tratamento da poluição industrial desde 1987, embora muito ainda há por
fazermos.
Referencias:
CHRISTIE,
Ian. Heavy Metal: a história completa. São Paulo: Editora Arx, 2010.
HOBSBAWN,
Eric. Era dos Extremos: O Breve Século XX (1914-1991). São Paulo; Companhia das
Letras, 1995.
MONIZ
BANDEIRA, Luiz Alberto. A Reunificação da Alemanha: do ideal socialista ao
socialismo real. 3ª edição, São Paulo: Editora Unesp; 2009.
NAPOLITANO,
Marcos. A História depois do papel. In PINSKY, Carla Bassanezi (org.) Fontes
Históricas. 2ª Edição, São Paulo: Contexto, 2010.
______.
História e Música: História cultural da música popular. 3ª Ed. Belo
Horizonte:
Editora Autêntica, 2005.
[1] Conceito
musical: trecho que faz a ligação entre dois andamentos diferentes dentro da
canção. (bridge= ponte)