domingo, 4 de agosto de 2013

Apêndice: Holocausto Nuclear (Parte 1)


Conforme prometido, seguem agora algumas letras que não faziam parte do trabalho original, devido ao recorte que eu tive que usar para aquela pesquisa.

Figuram aqui, além dos já citados Megadeth e Kreator, também outros expoentes do Thrash Metal: Metallica, Exodus, Anthrax, Slayer e Nuclear Assault.

Trata-se de um apêndice à proposta original, que demandou alguma pesquisa, porém, sem o mesmo rigor e foco do material que utilizei para o TCC.

Obviamente, também não pretendo listar todas as músicas de todas as bandas da cena Thrash Metal. È difícil até mesmo enquadrar algumas bandas nessa cena, pois as bandas apresentam fases que podem variar muito para a sua identificação. Cito o trabalho de Ian Christe (2010) onde ele trabalha várias “ondas” de estilos de Heavy Metal, e os álbuns mais representativos dentro daquela cena. 


Reforço que ao colocar essas outras canções aqui, mostra justamente o quão forte era o tema do holocausto nuclear, visto que foi trabalhado por muitas e muitas bandas, representando um imaginário em torno daqueles tempos.

Caso notem que alguma música a respeito do tema que não foi abordada, e que é relevante para o tema, fiquem a vontade para opinar e registrar.
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ANTHRAX – álbum: Among the Living (1987)

ONE WORLD
Stop it
There's been too much debate
We could save ourselves from holocaust
Or is that just our fate
Start now
But we continue to balk
We let the genie out of the bottle
But we still hold the cork

One, two,- not
Three, four,- die
One, two,- not
Three, four,- die

Ignorance, is no excuse
For violence
No one wins ...

One world
One world
One world - welcome to it
One world - don't abuse it
One world - to live out your life
One world - total schism
Tunnel vision
One world - taming the beast
Fighting for peace

Killing
You pushed a button that's all you did
It's much harder to kill a man
If you've seen pictures of his kids
Responsibility
And what are all our lives worth ?
What kind of sentence would you serve
For killing the earth

Russians
They're only people like us
Do you really think they'd blow up the world
They don't love their lives less
America
Stop singing hail to the chief
Instead of thinking SDI
He should be thinking of peace

One world.

UM MUNDO
Pare com isso
Tem havido muito debate
Nós poderíamos nos salvar do holocausto
Ou isso é apenas nosso destino
Comece agora
Mas nós continuamos a decepcionar
Deixamos o gênio sair da garrafa
Mas ainda temos a cortiça

Um, dois, - não
Três, quatro - die
Um, dois, - não
Três, quatro - die

A ignorância não é desculpa
Para a violência
Ninguém vence ...

Um mundo
Um mundo
Um mundo - bem-vindo a ele
Um mundo - não abusar dela
Um mundo - para viver a sua vida
Um mundo - total cisma
Visão de túnel
Um mundo - domesticando a besta
Lutando pela paz

Matança
Você apertou um botão que é tudo que fez
É muito mais difícil de matar um homem
Se você já viu fotos de seus filhos
Responsabilidade
E quais são as nossas vidas a pena?
Que tipo de frase que você serve
Para matar a terra

Russos
Eles são apenas pessoas como nós
Você realmente acha que eles explodirão o mundo
Eles não amam suas vidas menos
América
Pare de granizo cantando para o chefe
Em vez de pensar SDI
Ele deveria estar pensando em paz

Um mundo


Essa canção é mais direta, embora tenha um cunho mais pacifista, humanista e reflexivo. Podemos perceber que é uma crítica contundente à posição dos EUA em “demonizar” a URSS, principalmente durante o governo de Ronald Reagan. Desde que Mikhail Gorbatchov assumiu o posto de líder da URSS em março de 1985, implementou uma reestruturação do país, e deu sinais claros que não pretendia levar adiante a política da Guerra Fria (MEYER, 2009, P.7-26)

A última estrofe da canção é realmente o ponto de maior destaque, quando leva o ouvinte americano médio à reflexão: existe um ser humano russo, que tem tanto medo da morte quanto você.
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ANTHRAX – álbum: Spreading the Disease (1985)

Aftershock

The day will come, yu cannot run
White hot clouds fill the sky
See the red flare, blasting hot air
There's no place left to hide

Binding our eyes as the sun turns to black
A world full of harted and fear
All are committed, there's no going back
There'll be no one left to hear

Shock, there's no relief
Shock, no will ever know why
Shock

Shock, panic won't cease
Shock, time to say our last good-bye
Shock

Aftershock, humanity's loss
Aftershock, all is destroyed
Aftershock, have no remorse
Aftershock, into the void

Never again we cannot depend
On leaders who see things so blind
Time will not lend, and never amend
A lesson for all mankind

Após o Abalo

O dia virá, vocês não podem fugir
Nuvens brancas e quentes enchem o céu
Veja a chama vermelha, soprando ar quente
Não há lugar para se esconder

Atando nossos olhos enquanto o sol fica negro
Um mundo cheio de ódio e medo
Tudo está comprometido, não há volta
Não sobrará ninguém para ouvir

Abalo, não há socorro
Abalo, ninguém jamais saberá o porquê
Abalo

Abalo, pânico não cessará
Abalo, é hora de dizer nosso último adeus
Abalo

Após o abalo, a humanidade perdeu
Após o abalo, tudo está destruído
Após o abalo, não há remorso
Após o abalo, para o vazio

Nunca mais poderemos depender
De líderes que enxergam tão cegamente
Tempo não será emprestado, e nunca será reformado
Uma lição para toda a humanidade


A música começa descrevendo como seria o dia em que acontecesse um ataque nuclear, com muitas figuras de linguagem que nos remetem à explosão da bomba, tais como: “nuvens brancas e quentes”, “chama vermelha”, “não há lugar para se esconder”. E segue descrevendo o que acontece “Depois do Abalo”. 

Vemos uma crítica aos líderes mundiais, aqui subentendidos como EUA e URSS, ante à possibilidade da destruição em massa. A última estrofe deixa isso muito evidente ao ouvinte.
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EXODUS – álbum Bonded by Blood (1985)

And then there were none

Wars coming start running
Eyes blinded by the nuclear blast
Hearts beating retreating
All around are bodies burned to ash
Children crying and people dying
No salvation from this holocaust
Bodies burning and now their learning
In war painful death's the bloody cost

Life ends in sin
God cries world dies

And then there were none
The world starts to burn
The world powers learn
Tha satans work is done

Wheels grinding the glare's blinding
Bullets flying all around your head
Tanks crushing and soldiers rushing
If you live you'll wish that you were dead
Stop praying there's no saving
No salvation from your fiery grave
Brains swelling bodies smelling
And satan comes to see that no one's saved

E Então Não Sobra Ninguém

As guerras começam a acontecer
Olhos cegados pela explosão nuclear
Corações que batem em fuga
Por todos os lados corpos queimados até as cinzas
Crianças chorando e pessoas morrendo
Não há salvação deste holocausto
Corpos que queimam e agora eles aprendem
O custo sangrento da morte dolorosa na guerra

Vidas terminadas em pecado
Deus chora o fim do mundo

E então não sobra ninguém
O mundo começa a queimar
Os poderosos do mundo aprendem
Que o trabalho Satã está feito

As rodas trituram, claridade que cega
Balas voando por toda parte
Tanques esmagando e soldados correndo
Se você ainda estiver vivo, desejará que estivesse morto
Pare de rezar não há salvação
Nenhuma salvação de sua sepultura em chamas
Cérebros inchados, corpos exalando odor
E Satã vem ver que ninguém se salvou


Tal como outras bandas, o Exodus utiliza uma linguagem direta para atingir a sua audiência. Essa canção fala sobre a Guerra Nuclear, seus efeitos e possíveis desdobramentos. É interessante destacar aqui, que tal como outras canções que tratam do mesmo tema, os efeitos de um possível ataque nuclear são descritos baseados única e exclusivamente em modelos teóricos, e estão carregadas de representações de outras expressões artísticas, como o cinema e os quadrinhos.

A música fala sobre a agonia, a dor e a tristeza de um mundo aniquilado por armas de destruição em massa. Uma diferença diante de outras canções analisadas,está no fato de utilizarem simbolismos cristãos, trazendo o imaginário religioso para dentro da questão da guerra. Há uma analogia clara entre o Juízo Final bíblico e o “Juízo Final” nuclear, teorizado por muitos cientistas durante o período da Guerra Fria.
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METALLICA – álbum Ride the Lightning (1984)

Fight Fire With Fire

Do unto others as they have done unto you
But what in the hell is this world coming to?

Blow the universe into nothingness
Nuclear warfare shall lay us to rest

Fight fire with fire
Ending is near
Fight fire with fire
Bursting with fear

We shall die
Time is like a fuse, short and burning fast
Armageddon is here, like said in the past

Soon to fill our lungs the hot winds of death
The gods are laughing, so take your last breath
Combater Fogo com Fogo

Faça aos outros o que eles fizeram a você
Mas em que diabos o mundo está se tornando?

Reduzindo o universo a nada
Guerra nuclear nos fará todos descansar

Combater fogo com fogo
O fim está proximo
Combater fogo com fogo
Explodindo com medo

Nós devemos morrer
A vida é como um pavio, curto e queimando rápido
Armagedon está aqui, como foi dito no passado

Prestes a inflar nossas velas os ventos quentes da morte
Os deuses estão rindo, então respire pela última vez

Um dos grande clássicos do Metallica, esta música é direta. Aniquilação mútua através de armas de destruição em massa é realmente uma estupidez. “Combater fogo com fogo” foi a tônica da política de enfrentamento dos EUA e URSS durante toda a Guerra Fria, pois ambos sabiam que o outro lado responderia com a mesma intensidade se fosse necessário.

O medo da morte diante da Guerra Nuclear é realmente aterrador. Torna-se uma psicopatia nos EUA, especialmente, e esta música deixa isso muito explícito, falando que não há o que fazer a não ser esperar pelo fim.
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SLAYER – álbum Seasons in the Abyss (1990)

Skeletons Of Society

Minutes seem like days
Since fire ruled the sky
The rich became the beggars
And the fools became the wise
Memories linger in my brain
Of burning from the acid rain
A pain I never have won

Nothing here remains
No future and no past
No one could foresee
The end that came so fast
Hear the prophet make his guess
That paradise lies to the west
So join his quest for the sun

Shades of death are all I see
Fragments of what used to be

The world slowly decays
Destruction fills my eyes
Harboring the image
Of a spiraling demise
Burning winds release their fury
Simulating judge and jury
Drifting flurries of pain

Deafening silence reigns
As twilight fills the sky
Eventual supremacy
Daylight waits to die
Darkness always calls my name
A pawn in this recurring game
Humanity going insane

Shades of death are all I see
Fragments of what used to be

Minutes seem like days
Corrosion fills the sky
Morbid dreams of anarchy
Brought judgment in disguise
Memories linger in my brain
Life with nothing more to gain
Perpetual madness remains

Shades of death are all I see
Skeletons of society
Fragments of what used to be
Skeletons of society
Esqueletos Da Sociedade

Minutos parecem dias
Desde então o fogo comanda o céu
Os ricos se tornaram mendigos
E os bobos se tornaram os espertos
Memórias hesitam em minha mente
Das chamas da chuva ácida
Uma dor que nunca venci

Nada aqui permanece
Nenhum futuro e nenhum passado
Ninguém pôde prever
Que o fim chegaria tão rápido
Ouça o profeta fazendo sua previsão
Que o paraíso está no ocidente
Então junte-se a ele na sua busca pelo sol

Sombras da morte é tudo que vejo
Fragmentos que existiam

O mundo lentamente decai
A destruição preenche meus olhos
Guardando as imagens
De uma morte espiral
Ventos em chamas, libertam sua fúria
Simulando juiz e júri
Sendo levados por rajadas de dor

Um silêncio ensurdecedor reina
Enquanto o crepúsculo cobre o céu
Supremacia final
A luz do dia espera morrer
A escuridão chama meu nome
Um peão neste jogo periódico
A humanidade enlouquecendo

Sombras da morte é tudo que vejo
Fragmentos que existiam

Minutos parecem dias
A corrosão preenche o céu
Sonhos mórbidos de anarquia
Trouxeram julgamentos disfarçados
Memórias hesitam em minha mente
Sem nada mais a ganhar na vida
Uma loucura perpétua sobrevive

Sombras da morte é tudo que vejo
Esqueletos da sociedade
Fragmentos que existiam
Esqueletos da sociedade

Essa canção do Slayer é muito sutil em sua parte poética, e algumas figuras de linguagem utilizadas por Kerry King na canção é que nos dão a pista de que se fala sobre um mundo após uma Guerra Nuclear. A passagem “Minutes seem like days / Since fire ruled the Sky” já diz muito, pois a figura de “fogo no céu” é muito utilizada para tratar de uma explosão nuclear. A linha “Of burning from the acid rain” reforça a ideia anterior, e faz uma alusão aos possíveis efeitos de uma hecatombe nuclear.

A terceira estrofe fala sobre “sombras da morte” e “fragmentos” o que leva-nos a imaginar uma cena total destruição onde a sociedade que conhecemos deixa de existir. A quarta estrofe traz a seguinte linha que continua reforçando a imagem do holocausto nuclear: “Burning winds release their fury”.
A parte final traz consigo o título da canção, e sintetiza uma ideia, que é um mundo destruído, onde resta apenas uma lembrança estrutural do que foi a sociedade humana. 
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(continua na parte 2)

terça-feira, 25 de junho de 2013

Análise: Beneath the Remains (Sepultura)

Como última canção analisada para o tema Holocausto Nuclear, apresentaremos agora Beneath the Remains, da banda brasileira Sepultura.
Diferentemente das outras canções analisadas, essa conta sobre um mundo já devastado pela hecatombe nuclear, e um soldado (como faz sugerir a letra) continua guerreando num mundo sobre escombros, e o descreve através da sua visão.

Beneath The Remains
Sepultura – Album: Beneath the Remains (1989)
In the middle of a war that was not started by me
Deep depression of the nuclear remains
I've never thought of, I've never thought about
This happening to me
Proliferations of ignorance
Orders that stand to destroy
Battlefields and slaughter
Now they mean my home and my work
Who... has won? Who... has died?
Beneath the remains
Cities in ruins
Bodies packed on minefields
Neurotic game of life and death
Now I can feel the end
Premonition about my final hour
A sad image of everything
Everything's so real
Who... has won? Who... has died?
Everything happened so quickly
I felt I was about to leave hell
I'll fight for myself, For you,
but so what?
To feel a deep hate, to feel scared
But beyond that, to wish being at an end
Clotted blood, mass mutilation
Hope for the future is only utopia
Mortality, insanity, fatality
You'll never want to feel what I've felt
Mediocrity, brutality, and falsity
It's just a world against me
Cities in ruins
Bodies packed on minefields
Neurotic game of life and death
Now I can feel the end
Premonition about my final hour
A sad image of everything
Everything's so real
Who... has won? Who... has died?
Beneath the remains
(Tradução) Debaixo Dos Escombros
Em meio a uma guerra que não foi iniciada por mim
A profunda depressão dos restos nucleares
Eu nunca pensei, nunca pensei sobre
Este acontecimento para mim
Proliferações de ignorância
Ordens que são para destruir
Campos de batalha e morticínios
Agora eles significam minha casa e meu trabalho
Quem... ganhou? Quem... morreu?
Debaixo dos Escombros
Cidades em ruínas
Corpos comprimidos em campos minados
Jogo neurótico  de vida e morte
Agora posso sentir o fim
Premonição sobre minha hora final
Uma triste imagem de tudo
Tudo tão real
Quem... venceu? Quem... morreu?
Tudo aconteceu tão depressa
Senti que estava a ponto de sair do inferno
Lutarei por mim, por você
Mas e daí?
Sentir um ódio profundo, Sentir-se assustado
Mas além desses, desejar chegar a um fim
Sangue coagulado, Mutilação em massa
A esperança pelo futuro é só utopia
Mortalidade, Loucura, Fatalidade
Você nunca vai querer sentir o que eu senti
Mediocridade, Brutalidade, e Falsidade
É somente um mundo contra mim
Cidades em ruínas
Corpos comprimidos em campos minados
Jogo neurótico de vida e morte
Agora posso sentir o fim
Premonição sobre a minha hora final
Uma imagem triste de tudo
Tudo tão real
Quem... ganhou? Quem... morreu?
Debaixo dos Escombros


Análise:
Em 1989 o Sepultura lança o álbum “Beneath the Remains”, e tem na música homônima o seu protesto contra os absurdos da destruição coletiva pelas armas nucleares. A letra da música não é cantada, e sim, vociferada de maneira raivosa por Max Cavalera, e o andamento acelerado reforça o clima furioso da composição.
Tal como os alemães do Kreator, o Sepultura é muito mais direto, levando o ouvinte para a reflexão sobre o tema proposto. De início, começam com uma crítica à guerra em si, do ponto de vista de um jovem (tal como eles) que é obrigado a ir para o combate.
A ideia principal da música fica bem clara nas duas primeiras linhas “In the middle of a war that was not started by me /Deep depression of the nuclear remains”, onde o eu poético caminha por um mundo devastado.
Segue falando sobre a irracionalidade da guerra, de como os soldados são compelidos à violência, e absorvidos por ela, como se vê no trecho “Proliferations of ignorance /Orders that stand to destroy /Battlefields and slaughter /Now they mean my home and my work”. Essa comparação entre o campo de batalha e a casa, e também entre a matança e o trabalho, são muito sagazes por transportar ao ouvinte a transformação cerebral que ocorre na mente de um soldado em um ambiente de combate.
A letra segue falando sobre as consequências da guerra nuclear quando diz “Cities in ruins”, e fala claramente sobre à política de dissuasão feita por EUA e URSS, comparando a um jogo: “Neurotic game of life and death /Now I can feel the end”. Os interesses da potencias bélicas não levam em conta as vidas que se perderiam eventualmente, trazendo o pânico ao homem comum, principalmente para àqueles que estariam na linha de frente da guerra.
O eu poético continua contando sua experiência aos ouvintes, passando na canção todo o horror e desespero dos campos de batalha, principalmente sobre o que se veria após os ataques nucleares. Essa imagem é bem clara na estrofe “To feel a deep hate, to feel scared / But beyond that, to wish being at an end / Clotted blood, mass mutilation / Hope for the future is only utopia”, onde o último verso mostra a total falta de perspectiva numa solução para o mundo que não fosse o conflito.
O ponto de maior tensão, de maior expressão e impacto é justamente o refrão: “Who... has won? Who... has died? /Beneath the remains”. Indagações tão provocativas que podemos resumir o que teria sido o desfecho da Guerra Fria caso alguém tivesse realmente apertado o botão. Quem teria vencido ou perdido, pouco importa, pois o que sobraria seriam apenas os restos da nossa civilização.
Embora nessa fase da carreira o Sepultura estivesse dando uma guinada para um som mais Thrash Metal, esta canção ainda mostra muitas características oriundas do Death Metal, subgênero onde o Sepultura iniciou sua carreira. A bateria frenética e os vocais guturais são algumas das marcas que a banda carregou dos seus primórdios, e que foram aprimoradas ao longo dos anos.

Os riffs tem uma velocidade impressionante, e dão à musica um andamento alucinante, levando o ouvinte a sentir-se realmente desconcertado, como quem olha para todos os lados ao mesmo tempo e não sabe de onde pode vir o perigo. A musica, tem uma mudança no andamento, para riffs mais carregados (tipicamente Thrash), com pausas e o abrindo espaço para a melodia do solo frenético de Andreas Kisser. A composição é harmonica, com todos os intrumentos criando uma camada sonora muito poderosa.
A linha vocal, principalmente, transmite aos ouvintes toda a raiva e indignação contida na letra, principalmente com o uso de palavras que tem sua entonação reforçada, como no caso da passagem “Mediocrity, brutality, and falsity / It's just a world against me”, onde o sentimento de desespero fica evidente.
Beneath the Remains, foi o primeiro álbum do Sepultura pela gravadora RoadRunner (uma grande dentro do cenário Metal) e levou a banda para fora do Brasil, com início de uma vitoriosa carreira internacional. Não obstantes ao que acontecia no mundo, os brasileiros colocaram na canção homônima sua visão sobre o Holocausto Nuclear, sendo essa um composição muito rica do ponto de vista lírico, nos dando um belíssimo documento de uma história do imaginário, pois fala sobre as “possibilidades que não vingaram, sobre os planos que não se concretizaram”(SEVCENKO, 2003, P.30). Neste ponto, pelo menos, bom para todos nós.

Referências Bibliográficas:
BARROS, José D’Assunção. O campo da História: especialidades e abordagens. Petrópolis, Editora Vozes, 2004.
CHRISTIE, Ian. Heavy Metal: a história completa. São Paulo: Editora Arx, 2010.
HOBSBAWN, Eric. Era dos Extremos: O Breve Século XX (1914-1991). São Paulo; Companhia das Letras, 1995.
JANOTTI JÚNIOR, Jeder. Heavy Metal com Dendê: rock pesado e mídia em tempos de globalização. Rio de Janeiro: E-papers, 2004
NAPOLITANO, Marcos. A História depois do papel. In PINSKY, Carla Bassanezi (org.) Fontes Históricas. 2ª Edição, São Paulo: Contexto, 2010.
______. História e Música: História cultural da música popular. 3ª Ed. Belo Horizonte: Editora Autêntica, 2005.
SEVCENKO, Nicolau. Literatura como Missão: tensões sociais e criação cultural na Primeira República. 2ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Análise: As The World Burns (Kreator)


Ainda sobre o medo do Holocausto Nuclear, os alemães do Kreator falam sobre o tema na canção “As The World Burns”, do seu terceiro álbum de estúdio chamado “Terrible Certainty”, de 1987. Como curiosidade sobre essa música, é o último registro em estúdio onde o baterista Ventor assume também a voz principal, tarefa que desenvolveu principalmente no primeiro álbum, e em menor escala no segundo, quando Mille Petrozza assume de vez esse papel



As The World Burns
Kreator – Álbum: Terribel Certainty (1987)


The war is here
The future stops
Existence ends
Apocalypse will take our lives
One by one
As cities fall
As cultures die
As hope for survival
Turns into nothingness for us
 
Await your fate
You know there is nothing to save us now
Mankind never learns
Controlled by violent brains
The population has to pay
Doomsday has returned
As the world burns
Try to run, try to scream
It's too late
Megatons of death await to explode
To clear away
Fire and Pain
Now the time has come to destroy the planet Earth

Await your fate
You know there is nothing to save us now
Mankind never learns
Controlled by violent brains
The population has to pay
Doomsday has returned
As the world burns 


(Tradução) Conforme o Mundo Queima


A guerra está aqui
O futuro pára
A existência acaba
O apocalipse levará nossas vidas
Uma a uma
Conforme cidades caem
Conforme culturas morrem
Conforme a esperança de sobrevivência
Torna-se inexistente para nós

Espere seu destino
Você sabe que não há nada para nos salvar agora
A humanidade nunca aprende
Controlada por cérebros violentos
A população tem de pagar
O dia do juízo final retornou
Conforme o mundo queima

Tente correr, tente gritar
É tarde demais
Megatons da morte esperam para explodir
Para varrer
Fogo e dor
Agora chegou a hora de destruir o planeta Terra

Espere seu destino
Você sabe que não há nada para nos salvar agora
A humanidade nunca aprende
Controlada por cérebros violentos
A população tem de pagar
O dia do juízo final retornou
Conforme o mundo queima

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Análise:

Seguindo o estilo do Kreator, esta música tem uma abordagem bem direta sobre o tema, e o clima predominante é o de total raiva e indignação, que pode ser sentido através do ritmo acelerado dos instrumentos e do som visceral da bateria, onde as batidas soam como se fossem pancadas secas para aumentar a sensação do peso contido na parte lírica. O vocal gutural confirma a impressão que temos de alguém que está extremamente raivoso diante do que julga ser uma estupidez dos governos, que se armam para causar a destruição em massa. Em junho daquele ano temos o famoso discurso de Ronald Reagan no Portão de Bradenburgo, com o Muro de Berlim ao fundo, onde ele pede a Mikail Gorbatchov que derrube o muro, e consequentemente o socialismo, mostrando que o clima ainda era de extremamente tenso entre EUA e URSS (MEYER, 2009, p. 15-17).

A frase que inicia a canção sucita uma reflexão: “The war is here”. Em nenhum outro lugar a Guerra Fria teve contornos mais dramáticos que na Alemanha, um país dividido logo após a II Guerra Mundial, por interesses do bloco Capitalista (liderados pelos EUA) e do bloco Socialista (liderados pela URSS). Os germânicos do Kreator evidenciam esse sentimento, colocando o clima de guerra como algo que está na porta de suas casas.

Contextualizando com o temor da guerra nuclear, a letra coloca como o homem comum sente-se impotente diante da situação catastrófica causada como consequência da utilização das armas, como evidencia o trecho “Apocalypse will take our lives / One by one / As cities fall / As cultures die / As hope for survival / Turns into nothingness for us”.

O sentimento de medo é reforçado, com tom desesperador impresso nas palavras e na entonação em que são vociferadas, mais uma vez pela passagem “Try to run, try to scream / It's too late / Megatons of death await to explode / To clear away / Fire and Pain / Now the time has come to destroy the planet Earth”. Aqui temos a palavra Megaton empregada como poder de destruição das armas nucleares (obs: não vou entrar em descrição detalhada, mas para simplificar aos que não são familiarizados com o termo, é a capacidade de energia armazenada para gerar uma explosão. Para comparação, a bomba que destruiu a cidade de Hiroshima em 1945 tinha aproximadamente 1,2 megaton. No auge da Guerra Fria, URSS e EUA chegaram a desenvolver armas que podiam chegar até 50 megatons.) Segundo a canção, detonar esses arsenais varreriam a existência humana do planeta, literalmente.

O refrão sintetiza o mote geral da canção, sobre destruição, egoísmo e arrogância. “Await your fate / You know there is nothing to save us now / Mankind never learns”, diz que ao homem comum não resta nada a não ser esperar sua aniquilação, pois nada irá salva-lo, nem política, nem religião (aqui temos uma das características bem marcantes das canções do Kreator, e suas posições que perpassam a carreira da banda). E quando diz que “a humanidade nunca aprende” está fazendo uma referência às própria história, marcadas por guerras e genocídios insensatos.

Essa mensagem é amplificada na parte final do refrão “Controlled by violent brains / The population has to pay / Doomsday has returned / As the world burns”, criticando a própria natureza humana, que é violenta (outra marca da discografia do Kreator), e usando a metáfora do “Dia do Juízo Final” para falar sobre uma possível Guerra Nuclear, travada por interesses de grandes potências e seus governantes bélicos. A guerra é deles, mas quem paga é a população, com impostos e com a vida.

O clima predominante na canção é da mais pura raiva. Começa como uma avalanche sonora, e assim prossegue. Não há como ficar tranqüilo ouvindo a música, pois ela transmite um sentimento de movimento intenso. A música começa com riffs intensos, e é logo acompanhada pela bateria brutal (batidas com extrema violência e secas, acompanhadas das batidas nos pratos, causando a impressão de pancadas mesmo). O vocal gutural e os gritos que acompanham o refrão completam o clima de desespero e indignação que a música passa. Os vocais dessa música são feitos pelo baterista Jorgen “Ventor” Reil, que expele as palavras com seu timbre gutural, colocando força e raiva em cada palavra, dando “vida” à canção. As frases musicais são cantadas pausadamente, dando ênfase fonética à ultima sílaba.

Embora não sendo uma das canções mais famosas da banda, “As The World Burns”, ela é um registro muito bom do que o Thrash Metal oitentista produziu, com suas discussões políticas. A música, como outras do período e da própria banda, tratam do Holocausto Nuclear. Aqui o assunto é direto, para que seja entendido pela sua audiência, mostrando que o mundo naqueles tempos, não ia nada bem.

REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BARROS, José D’Assunção. O campo da História: especialidades e abordagens. Petrópolis, Editora Vozes, 2004


CHRISTIE, Ian. Heavy Metal: a história completa. São Paulo: Editora Arx, 2010.


GUARINELLO, Norberto L. História científica, história contemporânea e história cotidiana. Revista Brasileira de História, São Paulo, v24, n.48, 13-38, 2004.


HOBSBAWN, Eric. Era dos Extremos: O Breve Século XX (1914-1991). São Paulo; Companhia das Letras, 1995.


MEYER, Michael. 1989: o ano que mudou o mundo: a verdadeira história da queda do Muro de Berlim. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2009

MONIZ BANDEIRA, Luiz Alberto. A Reunificação da Alemanha: do ideal socialista ao socialismo real. 3ª edição, São Paulo: Editora Unesp; 2009.


NAPOLITANO, Marcos. A História depois do papel. In PINSKY, Carla Bassanezi (org.) Fontes Históricas. 2ª Edição, São Paulo: Contexto, 2010.
______. História e Música: História cultural da música popular. 3ª Ed. Belo Horizonte: Editora Autêntica, 2005.