quinta-feira, 30 de maio de 2013

Análise: As The World Burns (Kreator)


Ainda sobre o medo do Holocausto Nuclear, os alemães do Kreator falam sobre o tema na canção “As The World Burns”, do seu terceiro álbum de estúdio chamado “Terrible Certainty”, de 1987. Como curiosidade sobre essa música, é o último registro em estúdio onde o baterista Ventor assume também a voz principal, tarefa que desenvolveu principalmente no primeiro álbum, e em menor escala no segundo, quando Mille Petrozza assume de vez esse papel



As The World Burns
Kreator – Álbum: Terribel Certainty (1987)


The war is here
The future stops
Existence ends
Apocalypse will take our lives
One by one
As cities fall
As cultures die
As hope for survival
Turns into nothingness for us
 
Await your fate
You know there is nothing to save us now
Mankind never learns
Controlled by violent brains
The population has to pay
Doomsday has returned
As the world burns
Try to run, try to scream
It's too late
Megatons of death await to explode
To clear away
Fire and Pain
Now the time has come to destroy the planet Earth

Await your fate
You know there is nothing to save us now
Mankind never learns
Controlled by violent brains
The population has to pay
Doomsday has returned
As the world burns 


(Tradução) Conforme o Mundo Queima


A guerra está aqui
O futuro pára
A existência acaba
O apocalipse levará nossas vidas
Uma a uma
Conforme cidades caem
Conforme culturas morrem
Conforme a esperança de sobrevivência
Torna-se inexistente para nós

Espere seu destino
Você sabe que não há nada para nos salvar agora
A humanidade nunca aprende
Controlada por cérebros violentos
A população tem de pagar
O dia do juízo final retornou
Conforme o mundo queima

Tente correr, tente gritar
É tarde demais
Megatons da morte esperam para explodir
Para varrer
Fogo e dor
Agora chegou a hora de destruir o planeta Terra

Espere seu destino
Você sabe que não há nada para nos salvar agora
A humanidade nunca aprende
Controlada por cérebros violentos
A população tem de pagar
O dia do juízo final retornou
Conforme o mundo queima

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Análise:

Seguindo o estilo do Kreator, esta música tem uma abordagem bem direta sobre o tema, e o clima predominante é o de total raiva e indignação, que pode ser sentido através do ritmo acelerado dos instrumentos e do som visceral da bateria, onde as batidas soam como se fossem pancadas secas para aumentar a sensação do peso contido na parte lírica. O vocal gutural confirma a impressão que temos de alguém que está extremamente raivoso diante do que julga ser uma estupidez dos governos, que se armam para causar a destruição em massa. Em junho daquele ano temos o famoso discurso de Ronald Reagan no Portão de Bradenburgo, com o Muro de Berlim ao fundo, onde ele pede a Mikail Gorbatchov que derrube o muro, e consequentemente o socialismo, mostrando que o clima ainda era de extremamente tenso entre EUA e URSS (MEYER, 2009, p. 15-17).

A frase que inicia a canção sucita uma reflexão: “The war is here”. Em nenhum outro lugar a Guerra Fria teve contornos mais dramáticos que na Alemanha, um país dividido logo após a II Guerra Mundial, por interesses do bloco Capitalista (liderados pelos EUA) e do bloco Socialista (liderados pela URSS). Os germânicos do Kreator evidenciam esse sentimento, colocando o clima de guerra como algo que está na porta de suas casas.

Contextualizando com o temor da guerra nuclear, a letra coloca como o homem comum sente-se impotente diante da situação catastrófica causada como consequência da utilização das armas, como evidencia o trecho “Apocalypse will take our lives / One by one / As cities fall / As cultures die / As hope for survival / Turns into nothingness for us”.

O sentimento de medo é reforçado, com tom desesperador impresso nas palavras e na entonação em que são vociferadas, mais uma vez pela passagem “Try to run, try to scream / It's too late / Megatons of death await to explode / To clear away / Fire and Pain / Now the time has come to destroy the planet Earth”. Aqui temos a palavra Megaton empregada como poder de destruição das armas nucleares (obs: não vou entrar em descrição detalhada, mas para simplificar aos que não são familiarizados com o termo, é a capacidade de energia armazenada para gerar uma explosão. Para comparação, a bomba que destruiu a cidade de Hiroshima em 1945 tinha aproximadamente 1,2 megaton. No auge da Guerra Fria, URSS e EUA chegaram a desenvolver armas que podiam chegar até 50 megatons.) Segundo a canção, detonar esses arsenais varreriam a existência humana do planeta, literalmente.

O refrão sintetiza o mote geral da canção, sobre destruição, egoísmo e arrogância. “Await your fate / You know there is nothing to save us now / Mankind never learns”, diz que ao homem comum não resta nada a não ser esperar sua aniquilação, pois nada irá salva-lo, nem política, nem religião (aqui temos uma das características bem marcantes das canções do Kreator, e suas posições que perpassam a carreira da banda). E quando diz que “a humanidade nunca aprende” está fazendo uma referência às própria história, marcadas por guerras e genocídios insensatos.

Essa mensagem é amplificada na parte final do refrão “Controlled by violent brains / The population has to pay / Doomsday has returned / As the world burns”, criticando a própria natureza humana, que é violenta (outra marca da discografia do Kreator), e usando a metáfora do “Dia do Juízo Final” para falar sobre uma possível Guerra Nuclear, travada por interesses de grandes potências e seus governantes bélicos. A guerra é deles, mas quem paga é a população, com impostos e com a vida.

O clima predominante na canção é da mais pura raiva. Começa como uma avalanche sonora, e assim prossegue. Não há como ficar tranqüilo ouvindo a música, pois ela transmite um sentimento de movimento intenso. A música começa com riffs intensos, e é logo acompanhada pela bateria brutal (batidas com extrema violência e secas, acompanhadas das batidas nos pratos, causando a impressão de pancadas mesmo). O vocal gutural e os gritos que acompanham o refrão completam o clima de desespero e indignação que a música passa. Os vocais dessa música são feitos pelo baterista Jorgen “Ventor” Reil, que expele as palavras com seu timbre gutural, colocando força e raiva em cada palavra, dando “vida” à canção. As frases musicais são cantadas pausadamente, dando ênfase fonética à ultima sílaba.

Embora não sendo uma das canções mais famosas da banda, “As The World Burns”, ela é um registro muito bom do que o Thrash Metal oitentista produziu, com suas discussões políticas. A música, como outras do período e da própria banda, tratam do Holocausto Nuclear. Aqui o assunto é direto, para que seja entendido pela sua audiência, mostrando que o mundo naqueles tempos, não ia nada bem.

REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BARROS, José D’Assunção. O campo da História: especialidades e abordagens. Petrópolis, Editora Vozes, 2004


CHRISTIE, Ian. Heavy Metal: a história completa. São Paulo: Editora Arx, 2010.


GUARINELLO, Norberto L. História científica, história contemporânea e história cotidiana. Revista Brasileira de História, São Paulo, v24, n.48, 13-38, 2004.


HOBSBAWN, Eric. Era dos Extremos: O Breve Século XX (1914-1991). São Paulo; Companhia das Letras, 1995.


MEYER, Michael. 1989: o ano que mudou o mundo: a verdadeira história da queda do Muro de Berlim. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2009

MONIZ BANDEIRA, Luiz Alberto. A Reunificação da Alemanha: do ideal socialista ao socialismo real. 3ª edição, São Paulo: Editora Unesp; 2009.


NAPOLITANO, Marcos. A História depois do papel. In PINSKY, Carla Bassanezi (org.) Fontes Históricas. 2ª Edição, São Paulo: Contexto, 2010.
______. História e Música: História cultural da música popular. 3ª Ed. Belo Horizonte: Editora Autêntica, 2005.

domingo, 28 de abril de 2013

Análise: Rust in Peace... Polaris (Megadeth)


Dando continuidade ao tema Holocausto Nuclear, iniciado com a análise da música “Set the World Afire”, do Megadeth, seguiremos agora com a canção “Rust in Peace... Polaris” também da banda norte americana


Rust In Peace... Polaris

Megadeth – Álbum: Rust in Peace (1990)
 

Tremble you weaklings, cower in fear
I am your ruler, land, sea and air
Immense in my girth, erect I stand tall
I am a nuclear murderer I am Polaris
Ready to pounce at the touch of a button
My system locked in on military gluttons
I rule on land, air and sea
Pass judgment on humanity
Winds blow from the bowels of hell
Will we give warning? only time will tell
Satan rears his ugly head, to spit into the wind
I spread disease like a dog
Discharge my payload a mile high
Rotten egg air of death wrestles your nostrils
Launch the Polaris, the end doesn't scare us
When will this cease
The warheads will all rust in peace
Bomb shelters filled to the brim
Survival such a silly whim
World leaders sell missiles cheap
Your stomach turns, your flesh creeps
High priest of holocaust, fire from the sea
Nuclear winter spreading disease
The day of final conflict
All pay the price
The third world war
Raped peace, takes life back to the start
Talk of the part
When the earth was cold as ice
Total dismay as the sun passed away
And the days where black as night

Eradication of Earth's
Population loves Polaris


(Tradução) Enferruje em paz... Polaris

Você treme criatura fraca, se acovarda
Eu sou seu governante, sua terra, seu mar e seu ar
Imenso em meu cinturão, ereto eu estou alto
Eu sou um assassino nuclear, eu sou Polaris
Pronto para atacar ao toque de um botão
Meu sistema prendeu militares glutões
Eu governo na terra, no ar e no mar
Julgo a humanidade
Ventos sopram dos quintos do inferno
Se iremos avisar? só o tempo dirá
Satã levanta a sua cara feia, para cuspir no vento
Eu dissemino doenças como um cão
Descarrego meus mísseis a milhas de distância
O cheiro de ovo podre da morte invade suas narinas
Ative a Polaris, o fim não nos assusta
Quando isto cessar
Todas as ogivas irão enferrujar em paz
Os abrigos contra bombas estão totalmente cheios
A sobrevivência é como um simples capricho
Líderes mundiais vendem mísseis baratos
Seu estômago embrulha, sua carne se aflige
O grande sacerdote do holocausto, fogo vindo do mar
Inverno nuclear disseminando doenças
O dia do conflito final
Todos pagarão o preço
A terceira guerra mundial
Paz estuprada, leva a vida de volta ao inicio
Falo sobre a parte
Quando a terra estava fria como o gelo
Medo total enquanto o sol morria
E os dias ficavam escuros como a noite

A destruição da Terra
A população ama Polaris


  
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Análise da Canção: 

Essa música ocorreu a Dave Mustaine quando ele estava dirigindo pra casa vindo da cidade de  Lake Elsinore, Califórnia, quando reparou num veículo que seguia a frente, que tinha no pára-choque um adesivo que dizia: "Tomara que todas as ogivas nucleares enferrugem em paz". Imaginou aquelas velhas ogivas estocadas na praia com crianças fazendo pichação nelas, brincando como se fossem um objeto qualquer. O nome original da música seria “Child Sin”, e Dave a compôs ainda em seus tempos de Metallica, mas somente em 1990 é que a canção, repaginada, saiu da gaveta. (fonte: Site Megadeth Brasil). 


Mais uma vez o medo da Guerra Nuclear assola a cabeça de Dave Mustaine e para essa canção, ele se inspirou em um desejo coletivo (adesivos que poderiam se encontrados em muitos carros nos EUA) pedindo que os arsenais fossem desativados. 


Em 1990, o Megadeth lança o seu quarto álbum de estúdio “Rust in Peace”, sucesso de crítica e público, considerado até hoje uma das obras primas da cena “Thrash Metal. À época do lançamento já havia um acordo entre as potências mundiais (há uma alusão disso feita na capa do álbum) sobre o desarmamento nuclear. A música “Rust in Peace... Polaris” fecha o disco, e trata novamente sobre os perigos dos arsenais nucleares, mas dessa vez, sob uma ótica diferente, que para ser entendida é necessário, primeiro, esclarecer quem é a Polaris citada:


O projeto Polaris foi o primeiro SLBM (Submarine-Launched Ballistic Missile - algo como Míssil Balístico de Lançamento Submarino) liberado pela marinha Norte-Americana. Financiado e desenvolvido por volta dos anos 50 durante a Guerra Fria,tendo como intuito substituir o antigo míssil Regulus, tornou-se uma das mais importantes contribuições bélicas para os EUA desde então.(fonte: Site Megadeth Brasil)


Para afirmar e justificar o sua referência, a música representa de forma figurada o lançamento do míssil pelo submarino nas passagens "Satan rears his ugly head, to spit into the wind" e "High priest of holocaust, fire from the sea"

Dito isso, agora podemos perceber que Mustaine utiliza uma prosopopéia para criar uma fábula em torno do míssil Polaris, onde o artefato bélico assume a posição de uma espécie de “deus” após uma guerra nuclear, onde após o "toque do botão" poucas bombas destroem tudo, e o restante do arsenal vai continuar estocado sem ninguém para detonar.

Há uma crítica à corrida armamentista das potências na Guerra Fria, que gastavam bilhões de dólares no desenvolvimento de armas de destruição em massa, apenas para dissuadir o outro lado a não as utilizarem. E o refrão é muito perspicaz em expor essa situação: “Launch the Polaris, the end doesn't scare us /When will this cease /The warheads will all rust in peace”. Outra questão importantíssima está no desejo do homem comum expresso pela canção: “que todas as ogivas enferrujem em paz”, remetendo ao episódio que inspirou Mustaine a compor. As pessoas estavam com esperança que o bom senso prevalecesse, e que finalmente as potencias se desarmassem, acabando com décadas de tensão e desperdício de recursos. A humanidade, como um todo, almejava esse novo período de paz.

Percebe-se, também, uma crítica sarcástica de uma situação que se tornou comum com o final da Guerra Fria, quando diz: “World leaders sell missiles cheap”, nos remetendo diretamente à venda desenfreada de armas pelos governos dos países em grave crise financeira, tanto no bloco socialista quanto no mundo capitalista (HOBSBAWN, 1995, p. 250). Essa situação vai desencadear uma nova onda de terrorismo e corrida armamentista, que será analisada em um outro tópico.
 
Verificamos que a letra nos traz, tal como em “Set World Afire”, discussões que estão no âmbito do homem comum, mas também das academias quando se fala “Nuclear winter spreading disease”, se referindo às discussões feitas acerca da teoria do Inverno Nuclear, onde cientistas como o soviético Vladimir Alexandrov e o americano Carl Sagan,  passaram a discutir e fazer prognósticos sobre os efeitos na natureza no caso de uma eventual guerra entre as potências. A letra segue, falando sobre os efeitos do Inverno Nuclear, após uma provável Terceira Guerra Mundial: “When the earth was cold as ice /Total dismay as the sun passed away /And the days where black as night”. A Teoria do Inverno Nuclear tomou bastante fôlego nos anos 80, e também aparece em outras expressões artísticas, como nos filmes da série “Exterminador do Futuro”.



Em sua parte melódica, a canção é dividida em duas partes.  A primeira parte (Rust in Peace) começa com o som da bateria de Nick Menza, como o rufar de tambores que anunciam a guerra, e são a marca mais expressiva da música. As guitarras de Dave Mustaine e Marty Friedman entram com riffs poderosos, aumentando a tensão e dando o ritmo para o juízo final, tal como sugere a parte lírica.. A linha do baixo dá a base rítmica, mas que acompanha as guitarras e a bateria, criando uma canção homogênea. A base da canção está no ritmo da bateria, exatamente para dar a cadência progressiva desejada. A segunda parte (Polaris), entretanto, quebra essa cadência, acelerando andamento, mas ainda com todos os instrumentos seguindo o ritmo da bateria. Através dos efeitos na vocalização, a música consegue casa-se perfeitamente com a letra, quando sugestiona que é um “outro ser” que está falando. A ideia de que o míssil Polaris é o sujeito fica evidente quando analisamos também a parte sonora. 


Aqui o medo da Guerra Nuclear ainda está presente, principalmente nas figuras de linguagem mais utilizadas durante o período, falando sobre o apertar do botão, no trecho "Ready to pounce at the touch of a button". A imagem de um botão destruidor é tão poderosa, que atravessou o tempo, e ainda hoje é facilmente identificada, o que mostra que a obra do Megadeth tornou-se um documento para entender o não só o tempo em que foi escrita, mas nos serve para analisar as crises contemporâneas a respeito dos arsenais nucleares, como os casos do Irã (2009) e Coréia do Norte (2013).

REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BARROS, José D’Assunção. O campo da História: especialidades e abordagens. Petrópolis, Editora Vozes, 2004

CHRISTIE, Ian. Heavy Metal: a história completa. São Paulo: Editora Arx, 2010.

GUARINELLO, Norberto L. História científica, história contemporânea e história cotidiana. Revista Brasileira de História, São Paulo, v24, n.48, 13-38, 2004.
 
HOBSBAWN, Eric. Era dos Extremos: O Breve Século XX (1914-1991). São Paulo; Companhia das Letras, 1995.

MEYER, Michael. 1989: o ano que mudou o mundo: a verdadeira história da queda do Muro de Berlim. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2009.
 
NAPOLITANO, Marcos. A História depois do papel. In PINSKY, Carla Bassanezi (org.) Fontes Históricas. 2ª Edição, São Paulo: Contexto, 2010.
______. História e Música: História cultural da música popular. 3ª Ed. Belo Horizonte: Editora Autêntica, 2005.
 

<www.megadethbrasil.com >. Acesso em: 06 jun 2010  


 

sábado, 27 de abril de 2013

Agradecimentos

Prezados,

Agradeço imensamente a todos aqueles que visitaram, comentaram e divulgaram o Blog neste primeiro mês de vida. É muito legal ver que a iniciativa encontrou uma boa repercussão, o que me motiva a continuar (mesmo com todas as restrições do tempo que atualmente eu tenho).

Aos amigos mais próximos, que ligaram, mandaram sms, e-mail, etc, etc... e àqueles que curtiram a proposta do Blog e pediram contato. À todos vocês, agradeço do fundo do coração pela força!

A próxima atualização trará "Rust in Peace... Polaris", para continuarmos no tema Holocausto Nuclear.

Grande abraço "a tout le monde"!

Rodrigo Lourenço Costa